Quando dos estertores do Império Romano, com Sêneca, o filósofo estóico por excelência, já morto por Nero, que o condenou ao suicídio, após ter escrito seu Apolokocintosis, obra satírica em que ridiculariza o imperador e suas pretensões à divindade, o Senado se reúne para discutir a sublime divindade imperial e sua inefável corte.
Lá fora, a turba ruge por mais pão e circo, enquanto que em frente ao Senado uma fila de fulgurantes liteiras aguardam seus excelentíssimos ocupantes.
Em suas imaculadas togas os senadores, indiferentes ao caos reinante, discutem e discutem apenas; mas eis que um jovem adentrando ao salão principal, onde as discussões aconteciam, lança no meio dos senhores senadores, uma maçã podre, que pulveriza-se em uma miríade de fragmentos conspurcando as imaculadas togas.
A princípio surpresos e depois revoltados, chamam a guarda pretoriana para que lancem mãos ao jovem e o atirem às masmorras, onde deverá purgar a ofensa praticada; mas, antes que a guarda o detenha, o jovem agacha-se, toma das sementes da maçã e declara em alto e bom som: - A fruta, sim, está podre, porém as sementes estão boas, pois não estão contaminadas.
Aquelas palavras tiveram o condão de se transformar em ferro-em-brasa, cauterizando chagas de há muito expostas.
A guarda pretoriana queda-se estática, cabisbaixos, envergonhados os senadores se retiram e com eles a guarda pretoriana; César começava a ser acuado. A lição fora compreendida.
Esvazia-se o Senado, o silêncio se faz profundo como um grito de revolta e, no imenso recinto resta apenas o jovem, semente não contaminada nimbada com refulgência.
Como no passado, para sanear, renovar é preciso!...
Cordialmente. (José Carlos da Silva - RG 2.252.100)