“Confortavelmente†instalados dentro de um barco ancorado sob uma moita de ingazeiro, eu mais dois amigos curtíamos o sossego do pantanal. Já era o quinto dia de pesca, a saudade da família começava a pegar pesado, a exuberância da natureza que nos rodeava naquele cair de tarde me era quase melancólica.
Os últimos raios de sol ainda douravam um morrete que ficava em terras guarani. Pescávamos nas barras de um pequeno rio, desses de águas ligeiras, cujas correntezas ondulavam as muitas moitas de capim de suas margens.
A ausência dos últimos raios de sol nos devolvia a noite, uma linda noite, não era uma noite comum, pois ao se fazer soturno o pantanal se deixou envolver por uma refrescante brisa que além de aplacar o calor, aliviava o ataque dos borrachudos.
Por volta das nove da noite, o longínquo horizonte ao leste parecia inflamado, em poucos minutos um céu auriclaro nos mostrava mais uma vez a bela lua cheia, que parecia transformar as águas do rio da aldeia num cordão de prata. A beleza do luar sobre a imensidão pantaneira suscitou em mim uma incontrolável vontade de contar causos de assombração, comecei com um causinho mixuruca desses de lobisomem que não mete medo em ninguém.
Mal terminei, um dos amigos de pescaria em tom de brincadeira disse que poderíamos ser surpreendidos por um lobisomem paraguaio já que a fronteira estava tão próxima e que deveríamos estar preparados para um possível diálogo em espanhol ou guarani, terminando a frase com uma escandalosa gargalhada deixando com inveja os urutaus pantaneiros.
Por eu ser profundo conhecedor das transcendências que envolvem o ser humano, disse ao companheiro para não brincar com essas coisas do outro mundo, pois ele podia se dar mal a qualquer momento. Me disse que se aparecesse algo estranho era pra deixar com ele, pois primeira providência a tomar seria perguntar em bom portunhol: “Tu és um lobisomem ou um lobizombre?†Voltei a repreendê-lo: “olha, não brinca com essas coisasâ€.
A lua ia alta, quase onze da noite começamos a recolher a tralha no bote para voltarmos ao rancho uns dois quilômetros rio à cima, quando de repente surge das profundezas das águas um animal até então desconhecido, por estar molhado brilhava sob o luar, e avançou em nossa direção apoiando suas mãos - ou patas dianteiras? - nas bordas do barco, que só não virou graças à nossa pronta intervenção.
À primeira vista me pareceu as mãos de um homem, mas eram muito peludas, quando aquela coisa monstruosa acabou de emergir, sua cabeça era como a de um cachorro, mas muito peluda, suas mandíbulas compridas, com muitos dentes, abria e fechava seguidamente, sempre em nossa direção, emitindo um som aterrorizador, numa mistura de gritos, uivos e latidos.
Esse ataque foi rápido, não durou mais do que dois minutos, mas nos pareceu uma eternidade. Desesperado com a situação, lembrei-me de que trazia na cinta um pequeno facão. Ao tentar sacá-lo da bainha, aquele monstro avançou sobre minha mão, instintivamente encolhi o braço, mas sua boca atracou em meu facão e tentou me levar para o fundo do rio provocando a virada do barco, que emborcou por completo.
Nadamos desesperadamente até a margem e subimos a pé até nosso rancho, todos nós muito arranhados por espinhos e cipós, muito sujos de lama, além do prejuízo material, felizmente vivos. O que já era bom demais dado as circunstâncias...
Passado o susto, retornamos para Bauru onde retomamos nossas atividades diárias. Meu amigo sempre se recusa a comentar o acontecido, pois em todas as rodas de pescadores ficou conhecido como o homem que tentou globalizar o lobisomem, essa coisa genuinamente brasileira.†(Lazaro Carneiro é pescador e contador de histórias (outras aventuras em www.lazarocarneiro.impg.com.br))