Cultura

Olhares

Por Irineu Azevedo Bastos | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 3 min

Certa vez, uma pessoa amiga, a professora Beth, disse-me sobre uma recomendação que, na sua família, era tradicionalmente passada de uma para outra geração: “as pessoas não podem espirrar de olhos abertos, pois o globo ocular saltará para fora de sua órbita”.

Derivado do latim “oculo”, diz mestre Aurélio, que é um órgão par, em forma de globo, situado em cada órbita e, constituído de três camadas (esclerótica, coróide e retina) e de meios de refração (humores aquoso e vítreo, e cristalino). É o órgão da visão, que permite a pessoa enxergar.

No dia a dia da vida comum, quantas coisas cada olhar revela? E quantas imagens ele assiste, muitas vezes despercebidamente. Uma piscadela de olho que um rapaz destina para uma moça, pode ser o início de um namoro e, muitas vezes, o prólogo de um compromisso para toda a vida.

No sentido popular, muitas são as situações em que os olhos criaram o significado. “Olhar de peixe morto”, nada mais revela do que uma pessoa com os olhos parados, indecifráveis, inanimados, esgazeados. E “olho gordo”, consiste em alguém ter inveja da posição social ou da sorte de outrem, dirigindo-lhe um olhar impregnado de má sorte. Pessoa de “olho vivo” é esperta, sempre prevenida.

Desvinculada da pessoa, a significação do olho expressa outras situações. “Olho de sogra” é um doce com ameixas pretas e coco, muito festejado nas festas de aniversário. “Olho de cabra” é o nome de um valioso selo nacional, e também de uma espécie de fava, preta e vermelha, utilizada para fazer colares rústicos.

Estar no “olho da rua” significa desempregar-se, perder o seu trabalho. Encontrar-se no “olho do furacão” enseja à pessoa envolver-se em um conflito de conseqüências imprevisíveis ou incontroláveis.

Outros exemplos poderiam ainda ser referidos, nas artes (a máquina fotográfica é cópia do mecanismo visual), na literatura, na música. Nesta última, letras escolhidas ao acaso denotam a importância do olhar e dos olhos nas composições.

Dolores Duran, para a noite do seu bem cantou: “Ah! Como esse bem demorou a chegar/ Eu já não sei se terei no olhar/ Toda a pureza que quero lhe dar.”

Na música “caipira”, Tonico e Tinoco, em cima de “Rio de Lágrimas”, de Tião Carreiro, Piraci e Lourival dos Santos, entoaram: “O rio de Piracicaba/ Vai jogar água pra fora/ Quando chegar a água/ dos olhos de alguém que chora.”

Billy Blanco e Tom Jobim, na notável sinfonia que fizeram à cidade do Rio de Janeiro, conclamaram: “No alto, bem alto, tão alto,/ Pertinho do sol que ilumina este mar/ Mantendo a seus pés a beleza/ Sua grande riqueza é a luz do olhar.”

Ao indagar por quem sonha Ana Maria, Juca Chaves dialoga: “Não abriu Ana Maria/ Inda a flor de seu olhar/ Por quem sonha Ana Maria/ Eu não sei... nem o luar.”

Para terminar, diz um ditado popular que em terra de cego, quem tem um olho é rei. Indiscutível é a importância desse órgão na vida das pessoas e animais. Por isso, com cautela, deve-se ficar atento, permanecendo de olhos fechados quando espirrar. Senão...

(Historiador, escritor e colaborador do Ju Machado escritório de arte)

Comentários

Comentários