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A vida por um filme


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O mundo vai mal. Enquanto pássaros gorjeavam no bucólico amanhecer de Bagdá, conforme captaram microfones das agências internacionais, tinha início a Segunda Guerra do Golfo – ou seria Guerra do Iraque? Ou Guerra no Iraque? Ou Campanha de Libertação do Iraque? Ou guerra Bush X Saddam?... Este é um conflito tão confuso quem sequer tem nome definido. Que tal Guerra da Prepotência contra a Tirania? Do Péssimo contra o Ruim? Você já sabe quem, tecnicamente, vai ganhar, não sabe? Marmelada anunciada. A guerra sem nome vai interromper a vida de pessoas com nome, sobrenome e residência fixa. E não só agora, em março de 2003. Este é um conflito que certamente terá ecos no futuro. Serão sons familiares - de sirenes, explosões, gritos e lamentos. De batalhas verbais entre ex-aliados - e discursos afinados entre antigos desafetos. Um futuro com mais névoa e menos azul – e não o inverso, como apregoam os Estados (Des)Unidos da América.

Para cada ataque cirúrgico hoje, uma resposta sanguinária amanhã. “Amerinsanos” versus “piraquianos”. Trocadilho infeliz para uma realidade idem. Egoísmo, sarcasmo e insanidade. Vejam: os Estados Unidos já anunciaram que “levarão liberdade” a outros povos oprimidos que, sozinhos, não conseguem se livrar de seus regimes ditatoriais. Entenda-se: vem mais chumbo grosso por aí. Os atacados podem até ficar sem pão e água, mas se alimentam de ódio. Até que possam a se reagrupar – mesmo que na penumbra de palácios ou em labirintos de areia – para planejar novíssimos, precisos e desmoralizantes atos terroristas.

Bush e Saddam não são imortais – são mortíferos. O legado que deixarão à humanidade será mais ódio (e não petróleo, que ambos conhecem muito bem) como combustível que irá mover o futuro. E, afinal, qual a diferença entre os fanáticos soldados de Saddam, com seus gritos de ordem, bigodes característicos e armas enferrujadas, e os bem-armados jovens americanos de cabelos curtos, frases feitas e chicletes na boca? São igualmente vítimas daqueles que dizem zelar por suas vidas.

O pior é que, em breve, estaremos todos a assistir a uma nova safra de filmes de guerra nos cinemas. Vamos até comentar, entre uma pipoca e outra, que a tal superprodução nem merecia tantos Oscar assim. Que os efeitos especiais são bem-feitos, que o ator principal é bom, mas o roteiro... Ah, tudo bem, a gente já se acostumou. É cinema americano. É marmelada mesmo. (O autor, João Pedro Feza, é jornalista)

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