Não vamos mais relembrar e reprisar os desencontros do governo de FHC. No terceiro mês de governo, fica ocioso e muito chato. O PDT de Leonel Brizola prestou, esta semana, um desserviço à nação e ao governo do qual faz parte, quando insistiu, por toda uma noite, em horário nobre, em criticar o velho governo FHC e pressionar o novo governo Lula da Silva. Pediu abstratamente mudanças e aumentos para os funcionários públicos. Velha chantagem oportunista e populista. O gaúcho Leonel Brizola cada vez que envelhece mais um pouco fica mais inconseqüente.
Ninguém tem dúvida de que novo governo tem que ter propostas novas e falar olhando para o futuro. Esta é o grande desafio do governo Lula da Silva.
Está certo! O governo está apenas começando. Lembro de um velho assessor do velhíssimo governo Carvalho Pinto, lá pelos anos sessenta. Dizia, com o afã de democrata cristão convicto: “Temos pressa. Temos imensa pressa. Os desequilíbrios sociais do país não nos permitem ter sossego.†Naquela época ficávamos todos ansiosos, contemplando, basbaques, a tentativa de exercício do poder de alguém com declarado compromisso social. Conhecer, um pouco, como se exercia o poder, encantava qualquer jovem radical. Era a época das propostas de planejamento democrático. Esperança de vida social mais equânime. Hoje, na virada do século, no nosso Brasil, mais sofrido que nos velhos tempos, a ansiedade sobre nosso futuro faz, ainda, o coração sair pela nossa boca.
Governo novo tem que ter projetos claros. Propostas definidas e encaminhadas ao Congresso. A batalha real vai ser travada nos salões azuis e verdes do nosso Congresso Nacional. Até lá, não adiantam salamaleques de marqueteiros, nem barretagem para a opinião pública. Quando o governo começa, os marqueteiros devem passar para o discreto e bem remunerado, segundo plano. Insisto que pactos sociais, conselhos de toda ordem, comissões e mais comissões, não vão dar ao governo de Lula da Silva nenhuma sustentação nova para a aprovação das reformas prometidas e aguardadas. As reformas são absolutamente necessárias e urgentes. A realidade, nua e crua, é que vão desagradar milhões. Não há unanimidade quando se fala em reforma tributária. Todos vão perder. Não há unanimidade, quando se fala em reforma previdenciária. Vai ser uma máquina de moer carne de aposentados e funcionários públicos. Quem vai suportar a pressão do sistema judiciário e das bases corporativas do PT? Tudo fica ainda mais tenso, quando o governo de Lula da Silva apostou na austeridade fiscal. Este foi o discreto e potente cruzado de direita desfechado na ruidosa e tumultuada agitação da esquerda petista e nos assanhados pretensos esquerdistas aliados. Roberto Freire do PPS, por exemplo, insiste em criticar a falta de projeto estratégico do governo Lula da Silva. Bate forte: “Precisamos entender a política econômica deste governo. É a velha ortodoxia?†O ministro Palocci veio a público, pressionado pelas manifestações das esquerdas que continuam tendo um eco explosivo na mídia. Sentenciou, com todas as letras e sem ambigüidade, para que todos ouvissem com clareza. O governo não vai abrir mão da política de combate à inflação, da contenção dos gastos públicos, do equilíbrio fiscal. Arquivou definitivamente gestão temerária e irresponsável do Estado. Nem repetir a bobagem de estarmos vivendo um período de transição. Nem se cogitem de Planos B, ou “modelo econômico alternativoâ€. O caminho está firmemente traçado. A ortodoxia vai imperar. As circunstâncias alheias ao poder do governo, como a péssima situação da economia internacional, não abrem nenhuma nova alternativa política. Fazer a máquina girar, com competência e a urgência nova. Não vai ser fácil, nem rápido.
As cartas estão dadas. As esquerdas podem parar de se afligir. O rumo está firmemente traçado. Felizmente, para todos nós. (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)