“Não em meu nomeâ€. A palavra de ordem, uma das mais repetidas durante as manifestações contra a guerra especialmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, também é proferida atualmente por três bauruenses que hoje vivem em países que apóiam o ataque contra o Iraque.
A onda global pela paz, que tomou conta do planeta depois que as primeiras bombas caíram sobre Bagdá, surpreendeu os brasileiros desacostumados com protestos gigantes e conscientes no país natal, conforme relataram ontem ao JC.
“Ontem (anteontem), milhares de pessoas lotaram a Puerta Del Sol. Eram famílias inteiras, de crianças a idosos. Todos muito politizados criticando o apoio do primeiro-ministro espanhol José María Aznar à guerra. Ele não será reeleito e está com a popularidade em queda porque não representa a vontade dos espanhóis nem a minhaâ€, conta a estudante Silvana Almeida, que está há três mês vivendo em Madri.
De acordo com ela, a população considera o ataque um genocídio e teme represálias devido ao apoio, embora não tenha mudado a rotina nem viva em pânico devido à possibilidade de ataques terroristas.
“Até porque eles estão “acostumados†com os atentados realizados pelo grupo separatista basco ETA. Além disso, os protestos são superorganizados e contam com ostensiva proteção policial. O povo sai às ruas porque realmente acredita na causa e não para matar tempo. Por enquanto, só participei de duas manifestações porque sou cautelosaâ€, diz.
Protesto
E é justamente essa precaução que embasará uma reflexão pessoal, pois a partir de agora Silvana passou a questionar se não tem adotado uma postura muito passível diante de questões humanitárias.
Mesmo mais aguerrido e acostumado a protestos, pois participou de vários por militar do PSTU, Laércio Pereira, que hoje vive em Liverpool (Inglaterra), também destaca o empenho dos ingleses em repudiar a posição do premiê Tony Blair, que juntamente com os EUA participa da ofensiva por ar, mar e terra.
“Após o início do bombardeio, as manifestações se tornaram diárias. Na quarta-feira, quando a guerra começou, 5 mil pessoas foram para a frente da casa do Blair, em Londres, repudiá-lo. Antes do ataque, num dia de muito frio, com chuva, participei de uma grande manifestação em Manchester, onde havia muitas crianças e idososâ€, recorda.
Na opinião dele, devido à revolta popular, o primeiro-ministro tem dado declarações públicas diariamente pela TV para amenizar a situação e retomar a popularidade, que despencou.
“Através da mídia, o governo tentou passar um clima de pânico, de um iminente ataque terrorista. Mas a estratégia não colou e ninguém fala disso ou mudou a rotina por medo. O que mais se vê são protestos e cartazes com os dizeres “Not in may name†(Não em meu nome). Alguns setores estão propondo até greve contra a guerra, embora as informações transmitidas pela TV sejam aparentemente manipuladasâ€, relata.
Disputa
Segundo ele, em contrapartida, alguns jornais mais respeitados têm divulgado que os bombardeios foram antecipados porque o Iraque, devido ao provável ataque, teria fechado acordo com empresas petrolíferas da França, em detrimentos das inglesas. Em resposta, a ação militar do grupo de coalizão foi adiantado pois buscam o controle de novos poços de pretóleo, informa.
Talvez devido à disputas os americanos estariam se rebelando contra os franceses, conforme relata Michelle Carturan, que vive em Deerfield Beach, na Flórida.
“Tem muita gente descriminando os franceses porque o presidente da França, Jacques Chirac, se posicionou contra a guerra. Por aqui vemos gente favorável e contra a paz. Mas ninguém vive em estado de pânico estocando alimentos ou água. Só fico preocupada quando falo com a minha família no Brasil. As informações daí são diferentes das daquiâ€, comenta.
Ela ressalta que parte da população é favorável ao ataque porque as TVs transmitem constantemente programas sobre Saddan Hussein. “Dizem que ele tem sala para tortura e para estupro. Que ele amarrou os jogadores de time perdedor de volei num ônibus e os arrastou por ruas de asfalto. Depois, os jogou numa banheira de fezes de porco para que contraíssem infecçãoâ€, detalha.
Um outro ponto que estaria favorecendo o apoio ao presidente George W. Bush, segundo ela, é a alta do combustível. “As famílias mais indignadas são aquelas que enviaram filhos para a guerra. Mas não conheço ninguém nessa circunstânciaâ€, conclui.