Automobilismo, acredito, está no sangue. Folheando uma revista da qual a minha filha é assinante leio o título da reportagem: “Airton Daré, A Grande Viradaâ€. Airtinho de todos nós, que projetamos o nome de Bauru no automobilismo, foi mais longe.
Há muitos anos, correndo no Campeonato Brasileiro de Marcas, pleiteando o patrocínio de uma empresa de Bauru, ouvi de seu diretor que a empresa não tinha dinheiro para jogar fora. A mentalidade de alguns desses empresários era tão retrógrada que podia ser comprovada pela sua resposta.
Alguns dias depois, consegui patrocínio da Layrós Jeans, uma grande empresa em âmbito nacional.
Soube por jornalistas, amigos de meu tempo de automobilismo, que Airtinho tinha dificuldades em conseguir patrocinadores na temporada de 2002.
Lembro-me com saudades das corridas de kart na praça Portugal onde, ainda de calças curtas, sonhava em dirigir um carrinho daqueles. Naquele tempo, a cidade acabava antes de se chegar a praça.
Dessa época para cá, acompanhamos Portela, o pioneiro, rapidíssimo Quinho Barboza, sempre vencedor, Zeca Boi 70 Garcia, o rápido e agressivo Niltinho Ribeiro, Betico Gebara, Geraldinho Piolin, Zeca Mecânico, que voava nas pistas. Havia também um menino que nos encantava com sua sensibilidade e habilidade natural, Halinzinho Aidar, mas que, responsavelmente, assumiu os negócios da família, abandonando as corridas. Houve também o filho de um ex-prefeito que podia ter feito sucesso no automobilismo. Mas atendendo ao pedido da família, se afastou. Foi fazer sucesso nas competições de jetsky. De uma maneira mais profissional, Gatico fez muito sucesso, inclusive disputando com Airton Senna algumas corridas.
Comentários do meio automobilístico dizem que Airton teria conseguido um teste para ele com Ralph Firmhan, pouco antes de sua morte. Chegou a ganhar uma corrida de Fórmula Ford, a primeira a ser corrida com álcool combustível.
No ano em que ganhei a primeira corrida no brasileiro, Gatico foi eleito pela imprensa bauruense como o piloto revelação. Gilberto Verdó também andou correndo de fórmula no paulista.
Glauco Alex, além do sucesso no kart, chegou a correr de Fórmula Super V, nos EUA, fazendo sucesso. Voltou, por falta de patrocinadores.
É folclórico lembrar de Paçoca, campeão nas corridas de lambreta. Também de Giocondo, que morreu em acidente de rua com uma lambreta.
Veja a foto de Airtinho abraçado a Foyt, após a vitória em Kansas, na IRL. O mesmo Foyt que quando criança compra a revista “Cars and Drivers†para vê-lo nas corridas em Indianápolis, sem sombra de dúvida o maior templo do automobilismo mundial.
Imagino que em automobilismo somos todos seus alunos, hoje. Em meu primeiro emprego como engenheiro, meu patrão, um judeu boníssimo, disse-me que havia abandonado as corridas por medo de morrer na pista em um acidente. Infelizmente, anos mais tarde ele morreria em um teste de uma caldeira a gás, que veio a explodir.
No começo é tudo entusiasmo, mas com o decorrer do tempo sentimos a pressão, principalmente nas largadas. Aí vem o medo, especialmente após algum acidente.
Acostumávamos contar piadas e histórias engraçadas antes de subirmos nos carros e alinharmos no grid. Certa vez em Tarumã, debaixo de chuva, com o segundo colocado na alça de mira, rodei a 170 km/h ao tentar desviar-me de de Toninho da Mata, que atravessara à minha frente.
Bati no guard rail à direita e fui arremessado à esquerda, atravessando a pista em meio a outros carros descontrolados batendo, sendo atingido por eles, batendo novamente no guard rail. Retornando a corrida em décimo segundo, recuperei-me terminando em quinto. Senti medo, mas não o suficiente para levantar o pé do acelerador.
Andávamos muitas vezes às cegas e a referência entre estar na pista ou não, era o barulho do cascalho do acostamento no assoalho do carro. Lembro-me, ao ultrapassar Toninho da Mata na saída da nove, onde havia uma enxurrada difícil de ser atravessada sem que perdêssemos o controle dos carros e subirmos emparelhados a reta dos boxes, tê-lo visto balançar a cabeça em reação de desaprovação, à chuva, às condições da pista.
(Oscar Vuolo Sajovic é piloto e engenheiro mecânico)
*Continua na próxima edição