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A guerra passa na TV


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A televisão mostra George W. Bush preparando-se para entrar no ar a fim de anunciar o início da guerra. Enquanto a maquiladora procura ajeitar os fios de cabelos rebeldes a poder de laquê, o supremo magistrado ensaia o seu discurso. Está tudo escrito na sua frente no tele-prompter, mas ele não quer errar nenhuma vírgula. O papagaio esperou muito por esse momento. É hora de mostrar sua habilidade de estadista e a coragem do guerreiro. Era o espetáculo que a televisão desejava enquanto o mundo inteiro reprimia. Chegara o momento de salvar a honra da Pátria à custa de milhares de mortos e bilhões de dólares implodidos pelas “bombas inteligentes”.

Tudo faz parte de um simulacro de realidade. Não tivessem mostrado os bastidores para quebrar a monotonia de uma guerra há tanto tempo anunciada, a presença de Bush não ganharia mais do que alguns segundos nos noticiosos de todo o mundo. O que a maioria deseja é ver na TV o clarear das bombas. Sob cada teto que desaba existem seres humanos. Apenas um detalhe.

O fluxo de imagens na televisão sofre de um problema verdadeiramente ético. A luta contra a insubstancialidade do mundo contemporâneo, a falta de consistência das coisas e personagens, não são apenas uma questão estética. Dizem respeito à necessidade de resgatar a integridade das imagens, assim entendida como a capacidade de serem verdadeiras. Imagem que nos diga a verdade. Como dizia Deleuze, imagens que nos restituam, depois de todos esses processos midiáticos desagregadores, um pouco de real e de mundo.

O telejornal mostra um avião de 3 bilhões de dólares, maravilha tecnológica invisível aos radares. Mas nada nos diz quanto de sofrimento, quanto de infelicidade e desgraça pode espalhar a cada vôo lotado de bombas capazes de destruir tudo, em um raio de um quilômetro.

Os filósofos se perguntam: podem as imagens salvar as coisas de sua crescente miséria? Haveria ainda imagens essenciais, realmente únicas e insubstituíveis? Será que elas ainda têm a força de significar e nos mobilizar?

Poderia a televisão, comumente associada à avalanche de imagens que inunda nosso horizonte visual, ao clamor ensurdecedor com que coisas e sentimentos reivindicam sua presença, contribuir para sustar a fugacidade de tudo o que nos cerca? A TV, tida sempre por responsável pela cancerosa proliferação das imagens, pelo fluxo vertiginoso onde nada dura, onde tudo se desfaz, poderia servir para ajudar na construção de um mundo melhor?

As respostas poderão demorar um milênio, ou aparecerem no final dessa guerra que poderá transformar a sociedade global, para melhor. Pela primeira vez as nações ricas não estão unânimes. Ouve-se o clamor do povo contra a barbárie, em todos os cantos do Planeta.

Quem sabe o destino das imagens deixe de ser o da simples produção de clichês e parta à procura do sublime. O sagrado, refugiado nos objetos e paisagens tão sem transcedência no mundo contemporâneo. Poderia a televisão, ruidoso universo do descartável, nos emudecer e voltar nossos olhos para o infinito?

Sei que o leitor compra o jornal para saber as respostas e não as perguntas. Infelizmente também preciso de respostas. Chego a duvidar da imagem como cristalização do que é. Paro por aqui. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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