Prisioneiros da violência. O cenário é parecido, mas a situação mudou. Grades, muros altos e cadeados não são mais alternativa apenas para criminosos. Passaram a ser opção para a população intimidada pela falta de segurança.
Já que a violência não tem mais dia nem hora marcada para atacar, o medo tornou-se elemento comum no cotidiano das pessoas e interfere profundamente em seus hábitos.
As ruas da cidade são motivo de fobia para muitos, que dia a dia aumentam a quantidade de trancas em portas e janelas e abdicam de atividades de lazer. Nas ruas, o clima é de tensão. Quase uma guerra.
Cada um tem a sua receita para incrementar a segurança pessoal, seja nas ruas, em casa ou no trabalho.
“A gente tem que estar atento, sempre olhando para ver se tem alguém esperando atrás de alguma árvore ou algum posteâ€, sugere o comerciante Cristiano Pereira Dias.
A casa é o frágil refúgio da vendedora Mara Serrano, que não sai para as ruas à noite. â€œÉ perigosoâ€, alerta.
A cozinheira Maria de Lourdes Contieri, que mora no Parque Santa Edwirges, adotou postura semelhante: só sai de casa para trabalhar. Ela gostaria de instalar sistema de alarmes na residência, mas ainda não conseguiu em virtude do preço. “Fica caroâ€, diz.
Na falta de dispositivos eletrônicos para proteger a casa, Maria José da silva, que também mora no Parque Santa Edwirges, confia em seus cachorros. “Assim mesmo, pularam o muro para pegar uma bicicletaâ€, reclama.
A estratégia do vendedor Antônio Cipriano, do Jardim TV, é escolher os locais por onde passa, além de não andar pela cidade à noite. “Só vou a locais sadios e, à noite, estou em casa descansandoâ€, enfatiza.
A casa, para o funileiro Revair Ferreira, é motivo de preocupação. Ele nunca deixa o imóvel só. “Quando um sai, o outro fica. A gente anda preocupado e não tem mais aquela segurança de antigamenteâ€, diz.
Para andar no Centro, o cabeleireiro Anderson Roberto Tomé tem outra dica: não deixar a carteira à vista e evitar andar com sacolas, bolsas ou mochilas.
“Medo todo mundo tem, hoje em dia. A gente conta com a sorte. Se o ladrão quiser entrar, você pode fazer qualquer coisa que ele entraâ€, afirma.
Iluminação
O presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Leste, Waldir Caso, diz que além de grades, muros e cães de guarda, os moradores da região têm apostado nos seguros de bens e no trabalho dos guardas noturnos - desde que cadastrados pela polícia.
Alguns fatores, na opinião dele, agravam a falta de segurança: falta de iluminação pública em bairros como Pousada da Esperança e Jardim Chapadão, e casas desocupadas em núcleos habitacionais, que servem de esconderijo para infratores.
O presidente da Associação de Moradores da Pousada da Esperança, Natalino David da Silva, diz que além da falta de iluminação, as péssimas condições das vias públicas também prejudicam a segurança.
“Ruas pavimentadas ajudariam na ronda policial. As mães vivem apavoradas enquanto os filhos não chegam da escolaâ€, agrava.
No Fortunato Rocha Lima, como em muitos outros bairros da cidade, a situação se repete. “O que podemos fazer é alertar o pessoal para entrar em contato com a polícia quando precisarâ€, expõe Arnaldo de Jesus Souza, da associação de moradores.
Há pouco mais de um ano, moradores do Parque Santa Edwirges inauguraram uma tática diferente para combater os freqüentes furtos e roubos a residências. Eles montaram um grupo que passava a noite e a madrugada fazendo guarda nas esquinas do bairro.
Na época, a atitude surtiu bons efeitos. Mas hoje em dia a violência já voltou a assombrar a comunidade.
“Eu tenho grades por dentro e por fora nas janelas. A porta tem grade e três cadeados. Não saio mais de casa. Eu ia a bailes, mas hoje não tenho mais coragem de ir até a esquinaâ€, salienta a moradora Maria Tereza de Fátima.
Ela diz que está sempre atenta em todos os locais por onde passa. “Minha vida é observar tudo no caminho para o trabalho e no ônibus. Estou com medo e muito assustadaâ€, desabafa Maria.
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Bolsas perdem espaço
Quando se trata de violência, a moda perde importância. Com medo de agressões, roubos e furtos, muitas mulheres estão deixando de lado um acessório muito comum: a bolsa.
Ivone Lopes da Silva Rosa, que mora no Parque Jaraguá, diz que já não carrega mais bolsa para ir ao trabalho. “Eu não carrego. Ponho o que tem que pôr numa sacolinha de plástico, que não chama atenção, e não tenho vergonha de andar no ônibusâ€, explica.
O acessório é tirado do armário apenas quando Ivone vai ao Centro para pagar alguma conta. “Mas segurando firme, porque eu tenho medoâ€, diz.
Ela mora numa casa bem protegida - “muito fechada†- com grades e alarme. Ainda assim, não se sente segura. “A gente não tem segurança. Tem medo de sair até de diaâ€, confessa Ivone.
A moradora do Núcleo Mary Dota Luciana de Oliveira também está aposentando suas bolsas. Ela trabalha em um salão de beleza e volta tarde para casa. “Querem carregar mesmo. Às vezes pode acontecer uma coisa até mais grave por causa de uma porcariaâ€, avalia.
Outra adepta da nova tendência é Adriana de Jesus Ferreira, que mora no Jardim TV. “A bolsa chama muita atenção. Quando eu levo, ando com ela grudada no corpo e nunca com ela solta nas costasâ€, expõe.
A principal preocupação de Adriana é com seus filhos. “Nós ficamos em casa, trancamos as crianças no quintal e não ficamos muito expostos. Na rua, a gente sempre está esperto, olhando para um lado e para outro, sempre prestando atenção.â€
Maria Tereza de Fátima, do Parque Santa Edwirges, diz que mudou o estilo de sua bolsa. Agora ela é pequena e discreta. “Que caiba em baixo do braço, para não chamar atenção. Não levo nem talão de chequesâ€, revela.
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Até as igrejas
Nem mesmo locais considerados sagrados escapam da ação de criminosos. Hoje em dia, padres e pastores de Bauru também precisam preocupar-se com a proteção de igrejas e templos.
O pastor Ricardo Bezerra, da Igreja Evangélica Assembléia de Deus, conta que o alarme é acionado nos horários em que não há cultos. Durante o dia, mesmo quando o movimento é pequeno, sempre tem alguém observando para evitar furtos.
A Igreja do Evangelho Quadrangular já foi várias vezes furtada. Os ladrões levaram aparelhos de som e instrumentos musicais, principalmente.
O pastor Luiz Carlos Alves de Souza explica que em algumas unidades há zeladores, que dificultam os roubos. A maioria delas conta com seguro e alarme. “Mesmo assim, enquanto a igreja está aberta sempre tem alguém tomando contaâ€, revela o pastor.
Através de arrombamento, a Igreja de Santa Rita de Cássia foi outra vítima de furto. Atualmente, ela tem seguro e alarme, além de um caseiro que vigia e observa o movimento.