Os leitores que nos honram com a leitura das “Reflexões†que temos nos permitido oferecer à consideração das suas inteligências, devem lembrar-se de que, desde há muito, temos afirmado que a guerra ora em curso viria fatalmente, qualquer que fosse a atitude tomada, ou deixada de tomar pelo sr. Saddam Hussein. É que sempre foi para nós muito claro que a condenação desse ditador não vinha do fato de ele o ser. Os EUA são parceiros e cordialíssimos amigos de vários outros ditadores e de déspotas terríveis e, com tapete vermelho e efusivos abraços, os governantes americanos têm recebido o chefe do governo chinês que, ademais de ditador, mantém um regime declaradamente materialista e ateu. A condenação de Saddam Hussein decorre dos seguintes fatos: ele é anti-sionista, o seu país possui imensas jazidas de petróleo e, geograficamente, situa-se na chamada “rota da sedaâ€, de imenso valor estratégico, para quem tenha a pretensão de manter sob controle a Ásia central. O “lobby†pró-sionismo nos EUA não apenas influencia como praticamente faz e desfaz os seus governos - o que explica a total e incondicional submissão dos governantes ianques a todos os interesses de Israel, que jamais cumpriu qualquer resolução da ONU, e foram muitas, consideradas em desacordo com os seus objetivos - contando sempre com o apoio e a cobertura dos EUA. Ademais, sendo o Iraque um país islâmico, é difícil impor ali a “democracia†que, deliberadamente, desconsidera o Direito natural e confunde liberdade com licenciosidade a qual, por intermédio da proliferação do sexo irresponsável e de todos os vícios, mantém as massas anestesiada e incapazes de reagirem contra a exploração de que é vítima por parte dos que controlam o “deus†Mercado que, de há muito, tem substituído, na sociedade cada vez mais paganizada em que vivemos, o Deus dos cristãos e dos judeus.
A propósito, nunca conseguimos esquecer a impressão que nos ficou quando, a convite do governo da Alemanha Ocidental visitamos aquele país, poucos anos depois da 2.ª Guerra Mundial, que teria sido feita, entre outros objetivos, para “salvar a civilização ocidental cristãâ€.
Na defesa daqueles nobres objetivos, como se sabe, morreram muitos milhões de jovens do mundo inteiro, entre os quais algumas centenas de patrícios nossos, em formidável holocausto, embora hoje em dia essa designação se refira sempre, e tão somente, aos judeus assassinados pela tirania nazista. Na visita que estamos citando, na cidade de Hamburgo, já totalmente reconstruída, guia turístico a serviço do governo local levou-nos a visitar o bairro boêmio da cidade onde, estarrecidos, vimos anunciados, entre outras indecências, espetáculos em que mulheres eram copuladas por cães, vilipêncio à própria espécie humana. E a guerra fora feita para “salvar a civilização ocidental cristãâ€... Tal como agora, desrespeitando a coletividade internacional e todas as normas do convívio civilizado entre as nações, se está, supostamente, pretendendo derrubar um ditador e instalar a “democraciaâ€...
A desordem resultante está apenas começando, e nós ousamos dizer que estão próximos o fim do atual governo do Iraque, o do “deus†Mercado, e o da falsa democracia com que se têm camuflado os servidores daquele “deusâ€. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC, home-page: www.jorgeboaventura.jor.br, e-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)