Guerra no Iraque 2003

Saddam e EUA reforçam frentes de luta

Agência Folha
| Tempo de leitura: 4 min

Bagdá - Milhares de soldados iraquianos deixaram ontem Bagdá para fortalecer as frentes de batalha nas duas principais rotas que levam à capital, no mesmo dia em que os norte-americanos anunciaram o envio de mais 30 mil homens para o golfo Pérsico.

Um ataque aéreo matou 15 civis ontem em Bagdá. Um comboio de cerca de 1.000 veículos, segundo a rede CNN, seguiu pelo caminho que leva a Karbala e Najaf, onde está concentrada a divisão Medina, que combate as forças dos EUA lideradas pela 3.ª Divisão de Infantaria. Essa região foi palco dos mais sangrentos combates terrestres do conflito.

Os americanos afirmam que cerca de 1.000 iraquianos morreram nessa área nas últimas 72 horas. O Iraque não admite as baixas e declara ter matado soldados inimigos e abatido um helicóptero, 11 tanques e 12 veículos de combate em 24 horas.

Oficiais dos EUA reconhecem a perda de alguns tanques e blindados. Relatos de correspondentes da CNN na região apontam que o comboio de reforço aproveitou a “camuflagem” de uma tempestade de areia para se aproximar das posições onde estão localizadas as tropas dos EUA.

Rumo a Kut

Outra força iraquiana foi identificada por comandos americanos de inteligência em deslocamento em direção a Kut, a Sudeste de Bagdá. Seriam cerca de 3 mil homens para engrossar o contingente de 2 mil soldados da divisãode Bagdá que já estão na região.

Essas tropas de Saddam seguiram para área da qual se aproximam os fuzileiros navais americanos que cruzaram anteontem o rio Eufrates nas proximidades de Nassiriah. Oficiais dos EUA disseram que 12 de seus homens podem ter morrido no ataque iraquiano a um comboio de suprimentos em Nassiriah.

Os americanos afirmam que essa tática tem sido usada nos últimos dias por paramilitares ligados a Saddam Hussein. O governo iraquiano, por sua vez, afirmou que combates nessa região deixaram cerca de 500 civis iraquianos feridos e 200 casas destruídas.

O Pentágono não comentou essa informação. Completando a maior movimentação de forças de Saddam desde o início dos combates, uma coluna de até 120 veículos iraquianos deixou Basra, no sul do país, e seguiu em direção à península de Faw, na mesma região.

A coluna foi bombardeada por aviões da coalizão anglo-americana - suas tropas cercam a cidade há dias. Antes do início dessa movimentação iraquiana, o Pentágono anunciou o envio de mais de 30 mil homens para o golfo, reforçando suas tropas na região, que já contam com 250 mil soldados.

Foi confirmado o envio dos 16 mil homens da 4.ª Divisão de Infantaria, considerada a divisão mais sofisticada tecnologicamente do Exército dos EUA. O plano inicial era usar essa força especial para chegar a Bagdá pelo Norte do país, tática abortada depois que a Turquia vetou o uso de seu território como ponto de partida para soldados dos EUA.

Em discurso em base na Flórida, o presidente dos EUA, George W. Bush, disse que chegará o dia do ajuste de contas para o regime iraquiano, e esse dia se aproxima. “Nossos pilotos e mísseis atingiram alvos militares vitais com precisão letal”, completou Bush.

Para embasar esse discurso, o general Stanley McChrystal, vice-diretor de operações do Departamento de Estado dos EUA, afirmou que suas forças já lançaram mais de 600 mísseis Tomahawk e 4.300 armas guiadas por satélite desde o início da invasão.

Basra

Aviões britânicos e norte-americanos bombardearam ontem uma coluna formada por entre 70 e 120 veículos militares iraquianos, que se deslocava de Basra em direção à península de Faw (ocupada pelos marines), ambas localizadas na região Sul do Iraque.

De acordo com a BBC, o deslocamento poderia indicar uma tentativa por parte dos iraquianos de recuperar território perdido nos combates com a coalizão. Outra das hipóteses disseminada pelos britânicos era de uma possível retirada diante da possibilidade de um levante xiita contra as tropas de Saddam.

Antes do ataque, cerca de 1.000 soldados iraquianos teriam mantido combates ontem contra britânicos pelo controle de Basra. Fora o próprio comando militar do Reino Unido que anunciara anteontem “sinais” da suposta revolta na cidade de 1,2 milhão de habitantes, a maioria deles xiitas.

Dissidentes iraquianos xiitas fixados no Irã sustentaram que ocorreram distúrbios, mas não uma revolta. Mohsen Hakim, porta-voz do autodenominado Conselho Supremo para Revolução Islâmica no Iraque, disse que manifestações foram reprimidas por forças leais ao presidente.

O mesmo conselho convocou grupos de oposição iraquiana “a estarem preparados para se erguerem contra o regime ditatorial do Partido Baath (de Saddam)”. Em Londres, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disse acreditar que tenha ocorrido anteontem uma “limitada revolta”.

Estimulados pelos norte-americanos, os xiitas se rebelaram contra Saddam ao final da primeira guerra do Golfo, em 1991. O mesmo ocorria no Norte, com os curdos. Os levantes foram sufocados de forma violenta por Bagdá.

Desta vez, foram os britânicos que teriam estimulado as manifestações contra o regime. Alto-falantes fixados pelas tropas britânicas divulgam mensagens para “encorajar’’ os xiitas a fazerem oposição ao poder central.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha informou ter sido restabelecido fornecimento de água para cerca de 50% da população da cidade. Basra sofre com o desabastecimento desde o início da guerra.

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