Nova York - O Iraque deverá precisar do maior programa de ajuda humanitária da história, segundo avaliação feita ontem por órgãos e diplomatas da ONU. O problema é colocá-lo em andamento, como mostrou a primeira reunião aberta do Conselho de Segurança após o início da guerra, ontem, em Nova York. Primeiro, porque o próprio Iraque ataca a discussão.
Seu embaixador na ONU, Mohammed Al-Douri, criticou duramente os demais membros do Conselho por estarem discutindo a ajuda humanitária a seu país em vez de buscarem um meio de parar o ataque da coalizão anglo-americana - hipótese quase impossível neste momento, já que o CS não conseguiu nem mesmo evitar o início do ataque.
Além disso, há dúvidas sobre o aval de EUA e Grã-Bretanha, membros permanentes do Conselho, a uma ação humanitária por meio da ONU. Ontem, por exemplo, chegou ao porto iraquiano de Umm Qasar a primeira ajuda do governo britânico.
Mas o primeiro-ministro Tony Blair, que está nos EUA, diz que tenta convencer seu colega George W. Bush a facilitar a ação da entidade para ajudar o Iraque. Não se sabe também como retomar o programa de troca “Petróleo por Comidaâ€, interrompido desde o início dos ataques.
Dizendo-se cada vez mais preocupado com a situação no Iraque, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, propôs ao Conselho que a entidade assuma os contratos de petróleo do Iraque para continuar o programa. Essa idéia, porém, encontra oposição da Rússia.
Empresas russas têm o maior filão dos atuais contratos para exploração do petróleo iraquiano. Hoje há US$ 8,9 bilhões em compras de alimentos e medicamentos já aprovados para o Iraque sob o programa “Petróleo por comidaâ€, mas a entrega só será feita após aprovação do novo modelo de assistência ao país.
A ONU estima que 60% da população iraquiana tem como única fonte de alimentação os bens que recebem desse plano. Há também um outro complicador.
Países que se opuseram ao início da guerra, como França, Rússia e China, dizem que a entrada em ação da ONU deve ser feita de maneira - e sob uma linguagem - que não dê a impressão de aval ao conflito ou que diminua as responsabilidades de EUA e Grã-Bretanha em ajudar a população iraquiana.
Enquanto os diplomatas tentam se entender, o braço operacional da própria ONU para programas de alimentação diz que a situação é grave. Em Roma, a World Food Program (WFP) previu que um plano emergencial para o Iraque custaria mais de US$ 1 bilhão.
“Estamos prevendo que será um programa enorme, provavelmente a maior operação humanitária da história. Teremos que alimentar 27 milhões de pessoas, toda a população do paísâ€, disse Trevor Rowe, porta-voz da entidade.
A agência tem 30 mil toneladas de alimentos estocados em países vizinhos ao Iraque, mas precisa de aval da ONU para mandar seu pessoal de volta ao país. A WFP teria o maior naco do total do pacote humanitário da ONU, estimado em US$ 2 bilhões, caso o Conselho de Segurança consiga chegar a um consenso em Nova York.