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Um olhar de f

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 9 min

Há pouco mais de uma semana da realização do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, apenas a terceira prova do campeonato, já há quem considere que 2003 poderá ser um ano histórico para a categoria e, principalmente, para o automobilismo nacional.

Tamanha expectativa tem uma explicação: as novas regras impostas pelos manda-chuvas do esporte. Um dos que concordam com tal afirmação é o jovem leiturista bauruense Daniel Gimenes, que pode ser considerado, sem exagero, um dos mais fanáticos admiradores e conhecedores na cidade dessa modalidade de automobilismo, que completa 54 anos de história este ano.

Em entrevista ao AutoMercado&Cia, o “doutor Fórmula 1” Daniel fala o que pensa sobre os rumos da categoria na temporada 2003, avaliando as mudanças técnicas no regulamento e as probabilidades de vitórias de equipes e pilotos, especialmente as do brasileiro Rubens Barrichello, de quem é fã declarado.

Para ele, que pela quarta vez consecutiva marcará presença no GP Brasil em Interlagos, este será um ano chave para o futuro da categoria. Leia a seguir os principais trechos:

JC - Pelas duas primeiras corridas ficou claro que o novo regulamento influenciou para valer na categoria? Daniel - Sem dúvida. A vitória do finlandês Raikkonen no GP da Malásia mostrou que o resultado da prova anterior não foi obra do acaso e de acidentes. Foi, sim, fruto da nova dinâmica que a F1 ganhou, da qual as equipes ainda estão se adaptando.

JC - Mesmo com as alterações nas regras, dá para prever se a Ferrari vai continuar imbatível? Daniel - A Ferrari, pelo menos inicialmente, ainda conta com o melhor carro da F-1, mas o resultado das duas primeiras provas do campeonato, em que Michael Schumacher terminou somente na quarta e sexta colocações, mostra que novos parâmetros devem ser considerados pela equipe a fim de conseguir vencer neste mundial.

O novo carro, o F-2003 GA, é uma clara evolução do modelo campeão do ano passado, o F-2002, só que ele só deve estrear no GP de San Marino, 4º etapa do mundial, pois querem desenvolve-lo ao máximo, tática usada com sucesso pela equipe em 2002, quando o bólido só estreou no GP do Brasil, terceira etapa naquele ano.

A Ferrari deve trabalhar neste campeonato com uma nova mentalidade, pois o jogo de equipe, teoricamente, está proibido e sabe que Barrichello está disposto a brigar pelo título mundial.

JC - Mas e se ela, mesmo assim, vencer facilmente o campeonato? Daniel - Um domínio arrasador da Ferrari este ano pode ser muito ruim para a categoria, que está perdendo público e telespectadores. Não que seja ruim ela vencer, mas se ela continuar reinando absoluta, e só com um piloto (Schumacher), o desinteresse pelo esporte irá aumentar.

Com a volta das disputas pelo primeiro lugar, a Ferrari e Schumacher podem até ser campeões novamente, mas disputando o título palmo à palmo com outra equipe trarão de volta o interesse das pessoas. E é isto que nós queremos: grandes e desafiadoras disputas.

JC - E a McLaren, que já venceu as duas primeiras corridas, é uma ameaça real à Ferrari? Daniel - A Mclaren está fazendo mistério, o que já se tornou tradicional quando constrói um carro para ser campeão. Apostar na Mclaren é apostar na estrela de uma equipe que, ao longo de sua história, alterna períodos de sucessos e insucessos quase que iguais e, em se conhecendo a McLaren, o período de sucesso deve estar chegando.

As previsões de estréia do novo carro são só para o GP da Espanha, quinta etapa da temporada e a equipe anda descontente com sua parceira tecnológica, a Mercedes-Benz, que promete reagir em 2003. Igual comportamento espera-se de seus pilotos David Coulthard e Kimi Raikonen.

Coulthard é um piloto que alterna momentos raros de sucesso, como sua vitória no GP da Austrália, e mesmo sendo considerado um bom piloto, sempre acaba na sombra de seu companheiro de equipe. Pelo segundo ano consecutivo ele terá como companheiro o “Iceman” Raikkonen, de 23 anos, que mostrou uma performance soberba na Austrália. É um piloto talentoso que já ameaça despontar como um futuro campeão da F1.

JC - E a outra “cachorro grande” da F1, a Williams? Daniel - Para a equipe não haverá meio termo este ano. Ou alcança o sucesso que vem sendo batalhado desde 2000, ou fracassos podem levar mudanças no quadro técnico atual, pois a BMW ofereceu até a ajuda de seu departamento de aerodinâmica à equipe, o que foi recusado.

Isso mostra que o fabricante de motores já credita o fato de não vencer ao projeto do carro, que já foi criticado também por um dos pilotos do time, Ralf Schumacher. Este afirmou preferir o carro do ano passado, que venceu apenas uma etapa, o GP da Malásia.

Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher formam uma dupla de pilotos explosiva, que não se conversam nem se colaboram. Ralf é mais técnico e Montoya mais agressivo e, se a Williams acertar o carro, devem brigar pelo título em 2003.

JC - E quais são as mais promissoras este ano? Daniel - Renault, Toyota e Jaguar são equipes de fábrica, que disponibilizam de muitos recursos financeiros e devem fazer uma temporada de afirmação e crescimento, com algum sucesso. A Renault e a Toyota podem se tornar vencedoras em potencial, quem sabe, até o fim da temporada.

Já a Jaguar quer conseguir resultados sólidos para se afirmar no time dos grandes da F1 atual e almejar bons resultados à longo prazo, pois a equipe se reestruturou para 2003.

Cortou funcionários e altos salários, como Niki Lauda e Eddie Irvine, e contratando uma dupla de pilotos que pode dar o que falar em breve: o australiano Mark Webber, ex-Minardi, e o brasileiro Antonio Pizzonia, grande promessa que venceu em todas as categorias pelo qual passou e foi piloto de testes da Williams em 2002.

JC - Quais as equipes em situação mais delicada e à beira de um “ataque de nervos”? Daniel - A BAR tem de conseguir bons resultados neste ano, pois Jacques Villeneuve, primeiro piloto do time e um dos sócios, já avisou que se o carro não for competitivo, abandona o time no final do ano.

A Sauber dificilmente repetirá o bom desempenho de 2001, quando Kimi Raikonen e Nick Heidfeld levaram à equipe ao 4º lugar no mundial de construtores. Apesar de o seu motor ser o da Ferrari de 2002, ele já não tem o avanço tecnológico dos novos propulsores, mas pode conseguir um ou outro bom desempenho em 2003.

Outro ponto negativo é que a equipe trocou o jovem, talentoso e promissor Felipe Massa pelo já veterano e descendo a ladeira há muito tempo Heinz Harald Frentzen, um piloto que chegou ao auge em 1999 quando venceu dois GPs pela Jordan, mas que desde então não mostrou mais nada.

A Jordan e a Minardi são as equipes que estão na pior situação da F1 em 2003. Estão envolvidas em crises financeiras, que engoliram a Arrows e a Prost em 2002 e que anda ameaçando os dois times. Das duas, a Minardi é a que está mais cambaleante, mas parece que com uma providencial ajudazinha da FIA parece garantir que pelo menos termina o campeonato.

JC - E as chances brasileiras? Como devem se comportar os estreantes Cristiano da Matta e Antonio Pizzonia? Daniel - O Brasil pode até fazer bonito neste ano. Cristiano da Matta vem trazendo na bagagem o título da Cart, e com a Toyota, vem empolgadíssimi para beliscar pódios e até que sabe, supreender com uma vitória. Antoni Pizzonia na Jaguar pode ter boas atuações, mas não lhe deve se cobrar nada, pois a sua equipe está em um ano de afirmação, e ele está fazendo a sua estréias.

JC - E o Rubinho em 2003? Será que agora chegou a hora dele ou vamos ficar sempre com aquela sensação de ficar esperando “algo mais” dele? Daniel - Barrichello está extremamente otimista. Agora que o sistema de pontuação mudou e, se repetir as ótimas atuações do ano passado, pode nos dar muitas alegrias este ano. Na opinião do tri-campeão Jackie Stewart, pode até conquistar o título. Ele foi quarto em 2000, terceiro em 2001 e segundo em 2002. Se ele mantiver a seqüência...

JC - Você acha que o Rubinho é injustiçado ou muito perseguido pela imprensa? Daniel - Em termos de resultados, Rubinho pode não ser reconhecido como um grande campeão, pelo menos aqui no Brasil, onde a cobrança é só em cima de resultados não menores que o primeiro, mas nunca souberam enxergar que um quarto lugar com um Jordan Hart, como no Brasil em 1994, corresponde a um esforço e pilotagem tão brilhantes quanto ao do vencedor.

Rubinho desenhou sua carreira na F1 muitas vezes com carros considerados medíocres, como a Jordan Peugeot de 1996 e a Stewart Ford de 1997. Mesmo assim, este piloto, sempre simpático, extraiu muitas vezes “leite de pedra”. E não foram poucos os momentos de superação.

Por exemplo, no GP do Pacífico de 1994, correndo com um Jordan Hart, conquistou o terceiro lugar. No mesmo ano, usa a cabeça e entra no momento certo na pista para marcar a pole em Spa Francorchamps. Em 1997, na estreante Stewart Ford, alcança o segundo lugar no GP de Mônaco, perdendo só para Michael Schumacher debaixo de uma chuva torrencial.

Em 1999, Rubinho andou mais que o carro, marcou pontos em atuações magníficas que acabaram por levá-lo à Ferrari.

JC - E a atuação dele na Ferrari? Como você a classifica? Daniel - Quando finalmente tinha o melhor carro da F1 em 2000, a equipe já tinha em Schumacher a esperança de sair da fila de 21 anos sem títulos. A Rubinho coube o papel de cooperar com a equipe, no caso, arrancar pontos preciosos da até então poderosa McLaren e ajudar Schumacher a ser campeão.

Em 2000 vence seu primeiro GP, debaixo de chuva na Alemanha, em uma atuação soberba andando nas voltas finais com pneus para pista seca. Em 2001 não venceu nenhuma prova, mas melhorou seu rendimento se aproximando mais de Schumacher e terminando o ano na terceira posição. Até Schumacher reconheceu que Barrichello, com seus bons desempenhos, o obrigou a andar no limite.

Já 2002 foi o melhor ano de Rubinho na F1, pois marcou várias poles e venceu em quatro oportunidades, além de andar várias vezes à frente de Schumacher e terminando o ano como vice-campeão. Quando Rubinho tem equipamento e apoio para vencer, ele dá conta do recado.

JC - O que você espera do Rubinho em Interlagos? Daniel - Ele quer conquistar um bom resultado em Interlagos custe o que custar. A torcida estará dando o apoio de sempre e, se nada quebrar no carro, as chances de um pódio ou vitória de Barrichello são grandes.

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