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Aproveitar a guerra


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Por incrível que possa parecer, a guerra de Bush contra o Iraque poderá ajudar - e muito - a América Latina. Independentemente da duração do conflito, o tempo necessário para restaurar a economia daquele país, que já foi o berço da civilização, levará pelo menos dois anos. Antes disso, o povo americano terá de decidir se dará ou não mais um mandato a seu atual presidente.

A primeira vantagem disso para o Brasil e a América Latina será o atraso no cronograma original de implantação da Associação de Livre Comércio das Américas (Alca). Dois anos ou mais é tudo o que diversos setores industriais brasileiros necessitam para melhorar a sua atual capacidade de competição vis a vis produtos similares mexicanos, canadenses e americanos.

Obviamente, desde que tais setores façam a sua lição de casa e que o governo não os atrapalhe com a costumeira “enxurrada” de leis, muitas das quais conflitantes, e a conseqüente burocracia, que sufoca as micros e pequenas empresas. E, claro, que ao menos faça duas (a previdenciária e a tributária) das reformas constitucionais.

A segunda vantagem é, ironicamente, o que tem mantido a América Latina à margem do fluxo principal do capital de risco e da tecnologia internacionais. A região tem atraído, em maior ou menor grau, os investimentos estrangeiros quando os destinos preferenciais de tais fluxos (Europa, América do Norte, Sudeste Asiático, China, Rússia, Índia, Japão e países exportadores de petróleo) registram algum tipo de turbulência.

À América Latina, coube na divisão do mundo, feita no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, papel secundário nas preocupações das superpotências emergentes (Estados Unidos e União Soviética), durante as seis décadas seguintes, época que entrou para a história moderna como a da Guerra Fria.

O motivo de tal esquecimento é que a região registrou poucos conflitos em cinco séculos, desde a sua descoberta, em comparação com outros continentes. Esse fato pode, de repente, transformar-se numa espécie de refúgio seguro para o capital externo, num período de ações bélicas, que poderão se prolongar se Bush for reeleito.

Além disso, a América Latina e o Caribe têm um invejável potencial turístico ainda muito pouco explorado, da mesma forma que possuem a maior incidência de água doce do planeta. Portanto, é de se esperar que os investidores externos e turistas do mundo inteiro também estarão em busca de locais seguros para investir e passar suas férias. Uma coisa puxa a outra, podendo de tal forma dar origem a um círculo virtuoso.

Mas, para que isso não seja apenas um novo e passageiro ciclo sazonal de valorização da América Latina, será necessário que seus líderes tomem consciência de tal oportunidade histórica e passem a cooperar mais entre si em benefício do desenvolvimento de toda a região.

A integração física do subcontinente, com a realização de grandes obras de infra-estrutura, para as quais há disponibilidade de recursos, oferecidos por organismos multilaterais de crédito, como o Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, dentre outros, pode vir a ser a alternativa mais viável ao narcotráfico.

Ao final de tal processo, com certeza, os países latino-americanos e do Caribe estarão mais maduros e solidários para então darem início ao diálogo para a formação de uma Alca negociada e de baixo para cima e não nos termos como ela vem sendo proposta. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - FENADVB)

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