A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), que está ampliando a coleta seletiva de lixo para mais três bairros de Bauru, disputa os materiais colocados na rua pela população com os catadores de recicláveis. Em muitos bairros, quando o caminhão da Semma passa, os catadores já recolheram o lixo reciclável, conta Luiz Pires, titular da pasta.
Segundo ele, até microempresas que vendem produtos recicláveis estão atuando em bairros onde a Semma mantém a coleta seletiva. “Eles passam com caminhão antes da equipe da Semma e levam o lixo reciclável”, diz.
Pires reconhece que muitas pessoas sobrevivem da coleta e venda de recicláveis, mas reclama que a disputa prejudica a associação de catadores, gera despesa à Semma e não ajuda na limpeza pública. “Os catadores abrem os sacos e retiram apenas latinhas e vidros, materiais de maior valor. O resto é deixado espalhado nas ruas, margens de rio e em terrenos baldios”, afirma.
De acordo com Pires, a disputa pelos recicláveis vem aumentando. “Com a crise social, cada vez mais pessoas estão sobrevivendo da coleta de recicláveis e isso vem se agravando”, afirma.
Maria Celina Lobato Une, moradora no Parque Vista Alegre, confirma que quase toda semana os catadores de recicláveis passam antes do caminhão da Semma na sua rua. “Quando o caminhão passa, o lixo já foi levado. Tem muita gente que recolhe material reciclável, gente da favela que vem com carrinho de mão, de carroça. São pessoas que precisam disso”, diz.
Ela conta que já ocorreu de parte do material reciclável ser deixado na rua ou em terreno baldio. “Hoje não deixam mais sujeira aqui porque a gente vigia. Se eu vejo um catador jogando lixo em um terreno baldio, vou lá e reclamo”, afirma.
Silvanira Bramantti, moradora no Jardim América, passou a colocar o lixo reciclável nas ruas quase na hora que o caminhão da Semma passa no bairro. Mesmo assim, na maioria das vezes são os catadores que recolhem o material.
“Não sou contra eles levarem o lixo, desde que não deixem material esparramado pela rua, sujeira”, frisa. Para ela, o que dificulta a reciclagem é o fato do caminhão passar pelo bairro apenas uma vez por semana. “O ideal seria recolher os recicláveis pelo menos duas vezes por semana. É muita coisa para a gente guardar”, explica.
A Semma já estuda possibilidades legais de combater a ação de empresas que recolhem recicláveis em bairros onde a secretaria tem o serviço de coleta seletiva. “Nós já identificamos os caminhões que fazem a coleta e agora estamos notificando as empresas. Nos bairros onde a Semma faz a coleta as empresas estão proibidas de atuar”, frisa Luiz Pires.
Lixeiras fechadas
A ação dos catadores de materiais recicláves levou a Associação de Moradores do Residencial Parque dos Flamboyant a restringir o acesso às lixeiras aos moradores. Marilena Calabreti, presidente da associação, conta que quando as lixeiras ficavam abertas, boa parte do material separado pelos moradores era levado por catadores e outra ficava jogada na rua.
“Tivemos problemas com os catadores de recicláveis, que levavam o que interessava a eles e deixavam o resto no chão. Agora, as lixeiras ficam fechadas e nós vendemos os materiais recicláveis”, diz. Marilena não soube precisar o volume de material reciclável coletado, mas disse que a venda dos produtos rende cerca de R$ 150,00 mensais à associação.
Porém, ela ressalta que a atividade não é financeiramente lucrativa. “O dinheiro que recebemos é usado para pagar um funcionário que faz a limpeza das lixeiras. O lucro que temos é o ambiental, de parte do lixo que produzimos ser reciclado e não jogado no aterro”, afirma.
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Lucro
Todo material da coleta seletiva da Semma é enviado para a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis, projeto social que conta com uma usina de reciclagem no Jardim Redentor e que beneficia quase 30 famílias. “São famílias que vivem da triagem do material coletado pela Semma”, diz Luiz Pires.
Ele não tem estimativa da porcentagem dos recicláveis que seriam recolhidos pela Semma e que acabam sendo coletadas por catadores e empresas do setor. Pires frisa, no entanto, que a Semma tem ampliado a área de coleta seletiva sem aumento significativo do volume de material coletado.
Sem identificar-se, um catador de latinhas e plásticos nas ruas de Bauru disse ao JC que recolhe o lixo reciclável em um dos bairros onde a Semma faz a coleta para aumentar a sua renda. “A gente anda muito para conseguir pouca coisa se não aproveitar o lixo colocado para a Semma. Se eles (os membros da associação de recicláveis) precisam, a gente também”, diz.
O catador de reciclável garante que não deixa os materiais que não lhe interessam na rua. “Pego sim latinhas e garrafas pet, mas deixo o resto dentro do saco, no mesmo lugar”, afirma.