Guerra no Iraque 2003

EUA: tropas estão a 30 km de Bagdá

Agência Folha
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Bagdá - Tropas dos EUA atacaram ontem a Guarda Republicana do Iraque nas imediações de Bagdá e estão a cerca de 30 quilômetros da capital, segundo as forças de coalizão. O governo iraquiano negou que os norte-americanos tivessem atravessado o rio Tigre e vencido a guarda republicana.

O avanço ocorreu um dia depois de os EUA concluírem o que foi, segundo o Pentágono, seus mais intensos ataques aéreos contra as tropas do presidente Saddam Hussein desde o início da guerra. Os principais choques ocorreram em Hindiya, cidade cortada pelo rio Eufrates a 80 quilômetros da capital. No combate de rua, a 3.ª Divisão de Infantaria usou tanques e metralhadoras para disparar contra a divisão Medina, a mais bem armada da Guarda Republicana.

Os americanos dizem ter capturado dezenas de soldados iraquianos, muitos usando uniformes da brigada de Tikrit, cidade natal de Saddam, ao Norte, sinal de que a Guarda Republicana recebera reforços para conter a ação.

No total, até 80 mil homens compõem a Guarda Republicana, formada principalmente por sunitas, mesma corrente do islamismo seguida por Saddam, mas minoria no país. Segundo o semanário britânico “Jane’s Foreign Report”, especializado em questões militares, a força possui hoje cerca de 400 tanques russos T-72 e seus soldados usam versões adaptadas do fuzil AK-47, também russo.

Elas são a força de elite das tropas iraquianas. Outro confronto intenso ocorreu no cerco a Najaf, 160 quilômetros ao Sul de Bagdá. Duas brigadas da 101.ª Divisão Aerotransportada entraram na cidade pelo Norte e pelo Sul. Segundo repórteres na região, soldados vestidos à paisana atiraram contra forças dos EUA a partir de veículos civis - um soldado americano foi morto.

A 101.ª Divisão usou helicópteros Apache para atingir seus inimigos - os primeiros relatos indicavam cerca de 100 baixas iraquianas, entre mortos e feridos. “Estamos acabando com a habilidade deles de lutar”, anunciou o general dos EUA, Vincent Brooks, no comando de operações no Catar.

Mais tarde, o general Stanley McChrystal, vice-diretor de operações do Departamento de Estado dos EUA, disse que as operações de ontem complementaram os intensos ataques aéreos do final de semana.

O general disse que cerca de 3. mil bombas guiadas por satélite foram lançadas contra as tropas de Saddam em 48 horas -mais de um terço do total lançado pela coalizão desde o início do ataque, em 20 de março. “Aeronaves dos EUA cumpriram cerca de 1.000 missões no Iraque no domingo. Os alvos eram, em sua maioria, divisões da Guarda Republicana”, declarou McChrystal.

Segundo oficiais do Pentágono, que falaram sob a condição de anonimato, tais bombardeios teriam reduzido pela metade as forças das divisões Medina e Bagdá, responsável pela defesa das estradas que levam à capital pelo Sul.

Essa situação teria facilitado a ofensiva americana de ontem, montada para dimensionar as reais condições de combate da Guarda Republicana. Um das metas seria verificar se essa força realmente tem ou não armas químicas e se pretende usá-las dentro da “linha vermelha”. “Patrulhas estão avançando para ver quais são os pontos fracos e fortes deles. Essa ainda não é a grande batalha (rumo a Bagdá)”, declarou um dos oficiais ao diário britânico “The Independent”.

Maternidade

Mísseis americanos atingiram ontem uma maternidade controlada pelo Crescente Vermelho (equivalente, em países muçulmanos, à Cruz Vermelha) e outros prédios civis em Bagdá, matando inúmeras pessoas e ferindo ao menos outras 25, segundo funcionários de hospitais iraquianos e testemunhas.

Moradores e médicos disseram que aeronaves americanas bombardearam a região de Mansour. A maternidade, um complexo de prédios de escritórios e as sedes dos sindicatos dos professores e dos farmacêuticos teriam sido atingidos pelos mísseis americanos.

“Houve ataques aéreos. Ao menos 25 pessoas que trabalham ou vivem na região ficaram feridas. Três funcionários do Crescente Vermelho também ficaram feridos. Levamos todos os feridos a dois hospitais de Bagdá. Ainda não tenho informações sobre mortos”, afirmou Abdel Hameed Salim, funcionário do Crescente Vermelho em Bagdá.

“O forro caiu sobre nós. Cacos de vidro e detritos causaram cortes em muitos pacientes e funcionários da maternidade. As pacientes eram, em sua maioria, mulheres grávidas. Elas foram levadas a outros hospitais”, disse o médico Mohammad Ibrahim.

Em Doha, no Catar, o general Vincent Brooks não quis comentar o caso. “Não tenho informações sobre o caso do Crescente Vermelho. Não posso tecer comentários.” Um comunicado oficial das Forças Armadas dos EUA afirmou que os aviões americanos tinham atacado a região de Khark, em Bagdá, na qual há um palácio governamental.

Se for confirmado, esse incidente será mais um fato negativo da campanha militar da coalizão anglo-americana no Iraque. Anteontem, ao menos 31 civis morreram e 310 ficaram feridos em ataques à cidade de Hilla (80 quilômetros ao Sul de Bagdá).

O porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Bagdá, Roland Huguen-Benjamin, classificou de “horror” os bombardeios que a coalizão anglo-americana realizara em Hilla. Anteriormente, incidentes em postos de controle geridos pelos americanos haviam causado a morte de ao menos oito civis iraquianos, entre eles mulheres e crianças.

Esse tipo de incidente mina a campanha de relações públicas das forças americanas e britânicas, que visa atrair a opinião pública iraquiana ao esforço para depor o presidente Saddam Hussein. Ademais, segundo o governo iraquiano, centenas de civis já foram mortos em outros bombardeios da coalizão.

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