As horas foram passando, um peixe aqui e outro ali, várias canecas de água para fora do barco, foi quando os companheiros viram o Rick se vestindo parecendo um apicultor, com chapéu, luva e outros apetrechos. Isso foi motivo de risos da turma toda, porém já premeditando que a noite seria longa, com ataques de “nuvens de pernilongos”. Todos se acalmaram e cada qual procurou no escuro total pela sua sacola de roupas. Para alguns que não trouxeram roupa nenhuma e riram da situação, só restaram bofetões em si próprios, pois os pernilongos não deram trégua. Aí foi a vez do Rick dar risada!
Foi neste momento que o Celso, o mais idoso da turma, procurou junto ao piso do barco, por sua sacola, onde se encontrava a sua roupa de proteção contra pernilongos, foi quando notou que sua sacola estava completamente encharcada dizendo:
- “Ôoxi. ...Óóiá... Vixê ... Cumé queu vô usá essa ropa toda moiada desse jeitio? O negócio é nói juntá tudo i imbóra!”
Doido da Vida respondeu o Rick: “De jeito nenhum, nós viemos aqui para pescar a noite toda e não vamos embora não, quem quiser ir embora pode ir nadando!
Já de madrugada, o Rick com a veia do pescoço saltada e vermelha de tanto nervoso, sem dizer que no barco já não existia mais uma isca, nem para “remédio” (foi levado apenas 100 gramas de coração picado para os quatro pescadores dividirem entre si), resolveram de comum acordo, encerrar esta “pescaria”.
Eis aí que começa todo o mistério. Remando de volta para a margem do rio, tendo nos remos Rick e Valdimir, o barco, sem explicação nenhuma, parou completamente no meio do rio, deixando os pescadores assustados, pois tinha-se a impressão de que algo estava acontecendo ou segurando. Verificou-se que o barco estava com a poita recolhida, não tinha nenhuma vara ou linhada na água. Procurou-se com o remo se nada havia enroscado no fundo do barco, nenhuma rede de pesca, o que estaria acontecendo?
Todos já com muito medo, pois era inexplicável o fato do barco não se movimentar um centímetro. Até a correnteza, que é muito forte no local, puxava o barco, e o mesmo insistia em não sair do lugar!
Foi quando o medo falou mais alto, e o Celso iniciou resmungando:
- “Cêis num pidiru licença prá mãe d’água?” E gritou: “Socorro!!! Arguém aí ajuda nóis pelamor de Deus!”
O Vladimir só queria sair daquela situação, pois para piorar, lembrou-se de que ali era o caminho de volta da barcaça. O que deixou todos ainda mais assustados e pálidos, feito uma vela de sete dias.
O Rick alegou que ninguém os ouviriam naquele tenebroso lugar, de madrugada e ainda no meio do rio. Disse, com poucas palavras, que era o “unhudo” que estava segurando o barco, não os deixando ir embora. Bastou, para colocar todos em pânico total.
Foi quando uma voz foi ouvida na outra margem do rio para alívio de todos:
- “Que é que foi companheiros?”
Responde assustado o Celso:
- “Ajuda nóis pelamor de Deus!”
Novamente, a voz respondeu:
- “Eu vou é chamar a polícia seus vagabundos. Tá proibida a pesca. Saiam todos daí, e agora!”
- “De que jeito!” Respondem em coro todos dentro do barco, ainda enroscado e sem mexer um centímetro, nem para cima e nem para baixo.
Todos adormeceram molhados, sem saber a que horas, com muito frio, com fome, pois não havia mais nenhuma comida, não se sabe se com medo da polícia, do “unhudo” ou de outra inexplicável “coisa” que insistia em segurar e impedir o barco de sair do lugar noite à dentro.
Ao amanhecer, o primeiro a acordar foi o Rick, que observou que o barco já se deslocava sozinho, porém, ao olhar meio que com medo ao redor, observou que nada, absolutamente nada, poderia ter segurado o barco naquele local. Foi quando ele acordou todos e fez com que remassem a todo vapor rumo à margem do rio, sem ter a coragem de olhar para trás para observar ou entender o que realmente havia acontecido.
Na volta para Bauru, nenhuma palavra foi ouvida na boléia. Todos ficaram quietos e ao mesmo tempo intrigados. Não tocaram mais no assunto. Não se sabe até hoje se tinham medo de algo que poderia também “segurar” o carro, ou se estavam cansados e sem fôlego de tanto remar para sair do local, ou ainda se foi de tanto tirar água de dentro do barco.
De certo é que, depois de muito custo e de passados alguns meses insistindo, ficamos sabendo da história por completo, pois o Rick ainda pouco comenta sobre o acontecido, que sempre que por nós é lembrado, o faz olhar meio que assustado para os lados, sentindo um “arrupio” no espinhaço, temendo que alguma coisa ainda possa vir a acontecer. (Antonio Carlos Pavanato e Fernando Alvarez, em parceria, relataram esta história)