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Um ciclista em busca de aventura

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Noites sem dormir estudando mapas e rotas. Meses de intensa preparação física para suportar os milhares de quilômetros a serem pedalados. Atenção diária à manutenção da bicicleta.

O cenário, que comumente se desenrolaria com qualquer ciclista prestes a enfrentar uma longa viagem, não foi construído pelo bauruense Marcelo de Rezende, que realizou recentemente o sonho de “cair” na estrada com uma magrela sem se preocupar muito - ou quase nada - com a organização da aventura.

“Nunca levei a sério o ciclismo, pois só usava a bicicleta para manter a forma depois que abandonei o tae-kwon-do”, conta ele. Entretanto, a vontade de viajar pedalando sempre falou alto no coração de Marcelo, que desde criança nunca desgrudou das bikes. “Ficava enchendo o saco dos meus pais para comprá-las”, revela.

O desejo ficou ainda mais intenso quando o Brasil, a partir do início da década de 90, viveu uma verdadeira “febre” pelas mountain bikes. Fã das magrelas, não demorou para Marcelo adquirir a sua, uma Gary Fisher. Apesar disso, ainda faltava algo para o bauruense. Até que, em fevereiro deste ano, o “algo” finalmente ocorreu. E da maneira mais simples possível.

Desencanado com qualquer tipo de treino ou estudo de caminho, Marcelo resolveu partir para o litoral. “Apesar de já ter morado em Santos, não conhecia as várias opções de turismo que o local oferece. Por isso, minha intenção foi de completar todo o litoral, de Peruíbe até Parati”, explica ele.

Assim, Marcelo encheu os alforjes da bike com a bagagem mínima necessária - roupas, calçados, estojo de primeiros socorros, barraca, mapa e uma câmara de ar reserva - e largou para a aventura com as informações que contava para iniciá-la. “Sabia sair de Bauru e chegar na rodovia Castelo Branco”, frisa.

Desta forma, com o mapa à mão e através das dicas que foi pegando na estrada em barracas, restaurantes e postos de combustíveis, Marcelo seguiu rumo ao litoral. “Fiz um caminho mais longo pelo Vale do Ribeira até chegar em Peruíbe”, afirma ele.

Pedalando, em média, 120 quilômetros diariamente, o cicloturista alimentava-se e descansava, na maioria das vezes, em hotéis ou pousadas. “Aproveitava para tomar um banho e repor as energias para seguir em frente”, frisa Marcelo.

Como todo bom cicloturista, ele também não perdia a oportunidade de admirar as maravilhas da natureza pelo caminho. A que mais o impressionou foi a Serra da Cabeça da Anta, situada entre os municípios de Piedade e Juquiá. “É uma mata nativa e de clima ameno, que facilita para pedalar. São mais de 60 quilômetros só de descida”, relembra ele.

Após passar por Peruíbe o bauruense resolveu “esticar” seu percurso até Parati, um dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro que transformou-se em um lugar de várias e boas recordações para Marcelo.

Além do visual exuberante proporcionado pelas construções que lembram a arquitetura de séculos passados, o ciclista encantou-se com o chamado “Caminho do Ouro” em Parati. “É a estrada mais velha do Brasil e um lugar extremamente bonito”, ressalta ele.

Experiências

Mesmo sendo um cicloturista de primeira viagem, Marcelo não teve muitos problemas durante sua aventura, que percorreu exatos 1034 quilômetros contados entre ida e volta a Bauru. Um deles, conta o bauruense, ele enfrentou após pedalar em uma estrada de areia, que começou a impregnar no óleo das engrenagens das marchas. “Resolvi com um pincel e um litro de querosene”, conta.

Mas o maior apuro deles, considera Marcelo, ocorreu no asfalto com motoristas de caminhões. “Muitos deles não nos respeitam, pois jogam o veículo para cima da gente ou passam pelo acostamento propositalmente para jogar poeira ou nos assustar”, diz ele, na bronca com os brutos.

Apesar disso, Marcelo destaca que faria tudo novamente pelo puro prazer de pedalar. “Conhecer novos lugares e estabelecer contato com a natureza é uma ótima maneira de livrar-se do stress do dia-a-dia”, considera.

Ele gostou tanto que já pensa na próxima. Desta vez, o objetivo final é a badalada Porto Seguro, na Bahia, destino que ele tenciona atingir ainda durante o primeiro semestre. “Quero passar por Minas Gerais a fim de visitar as cidades históricas e enveredar de vez para o cicloturismo”, finaliza Marcelo.

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Caminho do Ouro

Conhecido por vários nomes, entre eles trilha Guaianá e estrada da Serra do Facão, o Caminho do Ouro foi usado no século XVII para transpor a Serra do Mar ligando o Rio de Janeiro a São Paulo.

Com a descoberta do ouro pelos paulistas, o caminho, inicialmente uma trilha dos índios guaianás, foi usado para o transporte do metal durante o século XVIII e, no século XIX, de café.

Com a chegada da estrada de ferro em Guaratinguetá em 1877 e a abolição da escravatura em 1888, a trilha, construída e mantida com trabalho escravo, ficou completamente abandonada até ser restaurada e reaberta pelo Sítio Histórico e Ecológico do Caminho do Ouro (Sh-eco) em 1999. O calçamento é dos séculos XVIII e XIX.

O Caminho do Ouro é feito a pé por uma distância de aproximadamente três quilômetros. Nele, há alguns pontos marcantes. O primeiro deles é a Toca do Berra Cabrito. Diz a lenda tratar-se de um local onde se escondiam salteadores e ladrões para assaltar as tropas. Outro é o sítio histórico-ecológico, que abriga uma exposição da história do local.

O Campo das Nações também merece atenção especial, pois é o lugar onde supostamente as tropas faziam seu primeiro pernoite. Além de estar a cerca de duas léguas de Parati, é o primeiro lugar da caminhada que teria espaço plano suficiente para os acampamentos, que chegavam a ter de 300 a 400 burros e um grande número de escravos.

A ruína da Casa do Registro é a atração final do passeio. Nela encontra-se a provável casa onde era cobrado o imposto sobre o ouro (1/5 da quantidade retirada) e um imposto de passagem e circulação de mercadorias. As paredes, construídas de barro ou pau a pique, já desapareceram; o que resta são as fundações feitas de pedra.

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