Parece até que Bertold Brecht, morto em 1956, ouviu os discursos de George Bush ou de Tony Blair sobre a “brevidade” da guerra dos chamados Aliados, contra o Iraque. O dramaturgo alemão deixou um poema no qual lembra os discursos de Hitler, que ele chama de “pintor” :
“O Führer lhes dirá: a guerra/ dura quatro semanas. Quando chegar o outono/ Vocês estarão de volta. Mas/ o outono virá e passará/ e tornará a vir e a passar muitas vezes/ e vocês não voltarão./ O pintor lhes dirá: as máquinas/ farão tudo por nós. Bem poucos/ precisarão morrer. Mas/ vocês morrerão às centenas de milhares, tantos/ como nunca se viu morrer./ Quando eu ouvir que vocês estão no Pólo Norte/ ou na Índia ou no Transvaal, apenas saberei/ Onde um dia se encontrarão seus túmulos”.
A poesia de Brecht reproduz suas teorias do teatro político. Cria um jogo baseado no efeito do distanciamento, pelo qual o público não se envolve emocionalmente na ação dramática; ao contrário, reflete sobre ela, de modo a poder transformar uma situação real.
Diferente de outros poetas. Desde Virgílio e Homero sempre louvaram a guerra como um momento de heroísmo e de glória - um reviver do espírito de nacionalidade. Na “Ilíada”, levados à condição de semi-deuses, Ajax e Heitor competiam para ver quem cortava mais cabeças com um golpe só de suas reluzentes espadas. Shakespeare, em “Henrique V”, fala das batalhas entre ingleses e franceses como espetáculos patrióticos. Louva o exército inglês que consegue derrotar o inimigo mais numeroso. Não importa à custa de quantos milhares de vidas ceifadas. O relinchar dos cavalos feridos abafavam os gemidos dos moribundos estendidos num campo de lama coalhado de sangue – “the rendez-vous with death”.
No começo do século passado o futurista italiano Marinetti levanta uma ode ao caos e às suas próprias frustrações: “Nós glorificamos a guerra – a higiene do mundo – militarismo, patriotismo, o gesto destruidor dos que trazem a liberdade, belas idéias que merecem que se morra por elas, e o desprezo pelas mulheres”. Apollinaire, um dos precursores do surrealismo, atuou como artilheiro na Primeira Guerra Mundial. Entrou em êxtase com o seu “Céu estrelado de obuses”. Ficaria encantado com Bagdá em chamas, uma cidade em fogo à meia-noite, sem se importar com os corpos estraçalhados de tantas crianças sob os escombros.
Felizmente os poetas se tornaram mais pacifistas a partir dos anos 60, depois da Guerra do Vietnã. Influência das atrocidades contra simples aldeões, documentadas pelos jornalistas de televisão e suas câmeras. Um pouco também pela morte inútil de tantos garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones.
Milhões de manifestantes em meio mundo saíram às ruas para opor-se à guerra contra o Iraque. A oportunidade de paz foi negada. As armas de “destruição em massa” até agora não apareceram. Errou quem preconizou que Saddam Hussein seria derrubado pelos seus próprios soldados. O exército iraquiano, praticamente desarmado, dá sinais de resistência e a guerra urbana, numa cidade cheia de labirintos como Bagdá, de cinco milhões de habitantes, pode multiplicar a tragédia.
Mesmo que algum poeta fora de moda levante sua pena para descobrir beleza na morte sob o sol escaldante, glorificada pelo vento uivante do deserto, a guerra continuará sendo inútil, mero monumento à mesquinhez humana, como sempre foi. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)