Atualmente a ONU está sendo marginalizada pelo unilateralismo, no passado foi marginalizada pelo bipolarismo e pela Guerra Fria. É possível que agora tenhamos um sistema ditatorial ocupando-se dos assuntos mundiais, mas na prática é tão difícil enfrentá-lo que será necessário recorrer à descentralização, que é um dos elementos da democratização, mas não o único. Penso que a globalização terá um impacto em todos os diferentes setores das vida. E teremos a globalização da democracia ou o que chamo a democratização das relações internacionais.
De algum modo, a ONU desempenha o papel de bode expiatório. Quando se tem a percepção de que uma disputa pode ser resolvida facilmente não haverá dificuldades, pois em seguida se encontrarão mediadores, já que será desejo de todos ter desempenhado um papel na solução do problema. Mas pode também acontecer de ninguém estar interessado em mediar a disputa, seja pelo custo da mediação, por ter-se outras prioridades ou pelo fato de o conflito demonstrar ser muito difícil de resolver. Nesses casos, deixa-se a disputa nas mãos da ONU e se diz: “a ONU está cuidando do problema” ou “estamos desempenhando um papel através da ONU”.
O verdadeiro problema é que a ONU não pode se defender. Como poderia fazê-lo, dizendo que em determinada disputa a culpa é do Estado-membro A? Porque esse Estado-membro A é seu próprio patrão. Se alguém ataca a ONU, a organização não pode usar as armas diplomáticas para se defender, pois se o fizesse deveria dizer que o país A é o responsável. Mas o país A está pagando suas contribuições à ONU, e se deixar de pagar pode prejudicar toda a organização. De modo que, por definição, a ONU é um bom bode expiatório.
Para a nova ordem mundial há dois elementos a serem considerados: um é a globalização e o outro é o papel a ser desempenhado pela ONU. A globalização é um processo irreversível e trará com ela novos problemas sem precedentes. Quando se tem um problema sem precedentes é mais difícil resolvê-lo. O problema do meio ambiente não existia antes, ninguém estava consciente dele. O terrorismo internacional é algo novo. Como também é a globalização das finanças.
O fato de estarmos enfrentando novos problemas significa que é necessária uma mudança drástica na ONU. Devemos nos preparar para a terceira geração da organização internacional. A primeira foi a Liga das Nações. A segunda a das Nações Unidas. A terceira geração não sairá à luz através de agregados ou mudanças na composição do Conselho de Segurança ou por alteração drástica no trabalho da Assembléia Geral. A terceira geração deve nascer por meio de uma mudança substancial no conceito geral da organização.
A mudança deve consistir na obtenção da participação de atores não-estatais nos assuntos internacionais. Não estaremos em condições de resolver certos problemas sem a participação de grandes cidades, de organizações não-governamentais ou de corporações multinacionais. Como será a participação dessas organizações, qual será seu poder, como co-existirão com as nações-Estado, que continuarão sendo os principais atores das relações internacionais? Esses são os problemas do amanhã. (O autor, Boutros Boutros-Ghali, foi secretário-geral das Nações Unidas no período 1991-1995)