Articulistas

Reflexões na hora amarga


| Tempo de leitura: 3 min

A maioria das pessoas não se dá conta do grau de desinformação acerca das realidades econômicas e político-sociais do mundo em que vivemos. É que, a partir da Revolução de 89 na França, estabeleceu-se a desvinculação entre a civilização ocidental a que pertencemos e as suas bases culturais, indiscutivelmente representadas pelas Sagradas Escrituras, que compendiam as raízes judaico-cristãs da referida civilização, aliás agora, segundo entendemos, em franca agonia.

O mecanismo da desvinculação a que nos estamos reportando, consistiu, essencialmente, como o temos reiteradamente mencionado, no art. 6.º da “Declaração Universal dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos” promulgada em 91, o qual estabelecia que “A lei é a expressão da vontade geral, manifestada diretamente, ou por intermédio de representantes”, afirmando-se adiante que “ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa, a não ser em virtude de lei”. Tais “pérolas” sedutoras passaram a constituir-se, como é notório, na própria espinha dorsal da democracia, tal como passou a ser entendida a partir de então e, já agora, a potência hegemônica, o novo império, tenta impor ao mundo, segundo as suas conveniências, a serviço das quais foi estabelecida a atual e brutal “doutrina Bush”, que “justifica” o que ela designa como “guerras preventivas”.

E o grau de desinformação a que nos referimos de início, impede as massas, no mundo, sobretudo ocidental, de perceberem que, a partir do famigerado art. 6.º, a organização das sociedades ditas democráticas abriu mão do referencial fixo de valores, os quais, em nossa cultura, são os que figuram nas Escrituras há pouco mencionadas, e tudo passou a depender da vontade de maiorias volúveis de assembléias legislativas manipuláveis, tanto quanto aos seus integrantes, quanto à natureza das leis que elaboram. E manipuláveis por quem? Por quem, desde 89, detinha o controle dos instrumentos de influência decisiva, sobre as emoções e opções eleitorais, à época a mídia escrita, a que se somam hoje a eletrônica e técnicas cada vez mais refinadas de comunicação.

Os resultados do desvario a que nos estamos reportando, aí estão aos olhos de todos, com a degradação dos costumes, o alastramento da licenciosidade e de tudo quanto resulta da confusão entre a verdadeira liberdade, e a licenciosidade a que a falta de um referencial fixo de valores a conduz. O tema, como vê o leitor, é vastíssimo e não poderemos estender-nos mais em seu tratamento, levada em conta a limitação do espaço de que dispomos e as nossas limitações pessoais. Apenas o afloramos para exemplificar com a tremenda desinformação que desrespeita o público, ao sonegar-lhe, no momento, o sentido mais profundo da civilização islâmica, que não tendo sido subordinada ao famoso art. 6.º, mas ao Corão, é uma civilização que poderia ser sinteticamente caracterizada como sendo de feição teocrática igualitária. No sentido de que todos os homens são iguais, devendo-se mutuamente auxílio fraterno, obrigação que atinge também os que governam, mas cujo governo está obrigado a fazer-se na conformidade daquele espírito. É uma civilização que, longe de abandonar o Direito natural, como o fez a nossa a partir de 89, o acentua vigorosamente, atingindo em muitos casos o mais acentuado fundamentalismo. No Iraque, por exemplo, está no poder o Partido Baath, que é um partido socialista, o qual, já antes de Saddam Hussein havia realizado a reforma agrária, continuada por ele, que lançou-se a uma tarefa de industrialização e modernização do país. Com os sucessos inicialmente obtidos, ele passou a alimentar o desejo de uma posição de liderança no mundo árabe, suscitando descontentamentos, e a ter uma disposição marcadamente anti-sionista. Então, seu país, flutuando em um mar de petróleo, com um governante que o pretende subtrair às “7 irmãs”, ademais anti-sionista, não poderia deixar de ser alvo da “doutrina Bush”, e tem que ser “democratizado”... (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC - e-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)

Comentários

Comentários