Economia & Negócios

Alta da energia deve forçar inflação

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

“Além do consumidor estar sendo penalizado por ter feito economia de energia durante o racionamento, agora passará a sofrer com aumentos de preços que certamente virão”. Com essa colocação, o economista Wagner Ismanhoto afirma que o principal reflexo do aumento da tarifa de energia em 19,55% - em vigor desde ontem na área da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) - será um inevitável aumento nos índices de inflação.

De acordo com ele, um reajuste desse porte consiste num peso muito grande para consumidores residenciais e para as empresas também, já que grande parte dos custos de unidades consumidoras comerciais e industriais vem da utilização da energia elétrica.

“No passado, o governo incentivou as indústrias a utilizar a energia ao invés de geradores, por exemplo, sob a alegação de ser uma fonte limpa, barata e em abundância. Só que agora, numa situação como essa o peso de um reajuste tarifário chega a comprometer o equilíbrio saudável de algumas empresas”, observa o economista.

De acordo com Ismanhoto, a partir do momento em que um dos componentes que mais influenciam nos custos de produção (a energia) sofre um aumento significativo, conseqüentemente isso eleva os custos operacionais.

“O reflexo direto disso é que as indústrias terão que repassar o aumento para os preços dos produtos. Dessa forma, é impossível manter índices de inflação em torno de 1% ao mês, como se deseja”, analisa o economista.

Segundo Ismanhoto, as empresas que se esforçarem para absorver o aumento nos custos da produção para não repassá-los aos preços dos produtos poderão ser obrigadas, por exemplo, a reduzir o quadro de funcionários.

“Hora errada”

Para ele, o aumento da tarifa de energia ocorreu num “péssimo momento” para o País, já que agora o governo estava começando a colher alguns resultados positivos advindos de medidas econômicas e políticas adotadas no início do ano.

“O impacto do reajuste na inflação será inevitável porque se trata de um produto que não pode ser substituído. Não é como na época dos aumentos de preços no varejo, no final do ano passado, que o consumidor podia trocar sua margarina preferida por outra mais barata. A energia é um serviço essencial e insubstituível, principalmente no caso dos consumidores residenciais”, observa.

No caso específico dos consumidores residenciais, o economista diz que a população está sendo penalizada por ter economizado em 2001, quando o País vivia a crise no setor energético e foi instalado o racionamento.

“De tanto que as pessoas economizaram, as distribuidoras de energia começaram a dizer que o faturamento caiu muito após o término do racionamento e que precisariam de uma compensação. Então, mesmo tendo colaborado com o governo através da redução forçada de consumo, agora a população recebe a notícia desse pesado reajuste”, comenta Ismanhoto.

O diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), José Luiz Miranda Simonelli, considera o aumento “absurdo”. Segundo ele, alguns setores, como o siderúrgico, serão ainda mais prejudicados em função de uma utilização muito grande de energia.

“O empresário que conseguir repassar preços dentro do limite do mercado, certamente vai ter que repassar. Os que não conseguirem precisarão reduzir suas margens de lucro, mas isso é totalmente injusto. A indústria estará, mais uma vez, sendo penalizada. O que o País precisa é de mais oferta de energia”, avalia Simonelli.

A reportagem tentou falar com algum diretor da CPFL ontem, mas a assessoria de imprensa da companhia informou que todos os que são autorizados a falar sobre o assunto passaram o dia em reunião. A empresa ainda aguarda dados e a nota técnica completa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para se manifestar oficialmente sobre o reajuste.

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Consumidor reclama

A consumidora Margareth Sonderman afirma estar inconformada com o reajuste de 19,55% na tarifa de energia elétrica, que vigora desde ontem. Com uma conta de luz em sua casa variando de R$ 50,00 a R$ 65,00, a nova tarifa aumentará esse valor entre R$ 59,77 e R$ 77,70.

“Eu não tenho mais o que reduzir em casa para economizar para que o valor da minha conta não suba muito. Desde o racionamento nós adquirimos hábitos que mantemos até hoje. Por exemplo: nunca mais assistimos televisão com a luz da sala acesa e não religuei meu freezer; nem pretendo. Vamos ter que engolir mais um aumento”, diz Margareth.

A assessora comercial Renata Pereira também não sabe o que fazer. “Eu e meu marido passamos a controlar tudo em casa na época do racionamento, até o tempo do banho da nossa filha. O que mais vamos ter que fazer? Esse reajuste é uma falta de respeito com todos os consumidores que economizaram energia quando o governo pediu”, revolta-se.

A dona de casa Alessandra Sanas diz que “vive para pagar contas”.

“A gente ganha mal e o salário não acompanha todos esses reajustes. Eu já deixo de sair aos finais de semana para economizar e conseguir pagar em dia, pelo menos, as contas essenciais, como a de energia. Só que também tem aumento da gasolina, no supermercado, do telefone, do gás... Não sei onde vamos parar”, lamenta.

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