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Entre realismo e idealismo


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Diz-se que o dia 11 de setembro mudou tudo. Resta ver se conseguirá trocar a psique dos Estados Unidos quanto à natureza humana e como se autopercebe o papel da única hiperpotência em administrar (ou dominar) a nova desordem mundial. No momento, a tarefa urgente é mais modesta. Trata-se de administrar o Iraque depois do desastre. Nas mentes dos centros de decisão dos Estados Unidos competem duas tendências que, na realidade, estão de acordo e respondem a duas doutrinas (aparentemente) divergentes. Realistas (os que agora dominam o cenário) e idealistas concordam em que o resto do planeta pouco tem a fazer no futuro da administração do Iraque.

A primeira tendência é a que está plenamente refletida nos textos-base que declaram que todos os homens foram criados iguais, que cada um tem direito à busca da felicidade e que, enquanto não se demonstrar o contrário, todo mundo é inocente, inclusive os estrangeiros. A estes fez-se uma prematura oferta para que viessem a ser acolhidos sob a nova nação, com o firme propósito de que a oportunidade e o trabalho operariam o milagre de torná-los proveitosos cidadãos. Por outro lado, esta doutrina está firmemente baseada no cuidado puritano pelo qual, com convicções wilsonianas ou à força, se cabe, pode-se impor os valores norte-americanos em qualquer parte do planeta.

Idealistas e realistas concordam na superioridade do “American Way of Life”, na paz e na guerra. No entanto, os idealistas têm um esquema para a paz no Iraque que choca-se com o pretendido pelos realistas. Ambos, no fundo, prefeririam que o resto do mundo não se intrometesse, e daí sua desconfiança em relação à maioria dos europeus, divididos, oportunistas. Entretanto, ambos puritanos, discordam totalmente quanto à rapidez com que querem executar seus planos mentais. Os idealistas querem que praticamente no momento da rendição do regime de Saddam Hussein - ou o que for que aconteça com ele - a administração do país recaia num passe de mágica nas mãos dos iraquianos que, em sua imensa maioria, e enquanto não for demonstrado o contrário, são inocentes.

Por trás dessa ideologia está uma coalizão formada pelo secretário de Estado, Colin Powell, e o próprio presidente George W. Bush, em permanente transe religioso. Os falcões realistas que tomaram o Departamento de Defesa desde as eleições, e monopolizaram quase todos os ramos da administração desde 12 de setembro, não concordam. Vêem este plano com tanta desconfiança quanto a possibilidade de compartilhar o controle político com os europeus e, ainda pior, com a estrutura desprestigiada da ONU. Além disso, há que se contar com as disputas sobre o uso do dinheiro obtido com o petróleo iraquiano com destino à reconstrução, terreno espinhoso aberto à disputa internacional.

Entre estes dois extremos disputa-se a paz, quando nem mesmo estão de acordo sobre como anda a guerra, e muito menos como terminará. E, em seu desacordo, formaram uma coalizão: uns querem entregar já as rédeas do país aos iraquianos sobreviventes, enquanto outros não confiam em ninguém, mas não têm experiência para governar um país de duvidosa transição. Além de fazer o trabalho sujo da guerra, podem ficar permanentemente encarregados do problema. A oficialidade norte-americana pode ver-se obrigada a desempenhar o papel para o qual de maneira inata diz não estar preparada: o de polícia planetária. (Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu)

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