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Estação do Carandiru


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Tenho minhas dúvidas sobre o que era pior: o presídio do Carandiru ou os freqüentadores do cinema do Bauru Shopping. Casa lotada. De um lado a moça que comia pipocas extraídas de um pacote piramidal e, do outro, um tipinho que batia papo no celular como se estivesse na sala de casa. O cara de trás chutava minha cadeira com a desenvoltura de um elefante.

Tentei me concentrar assim mesmo no filme de Hector Babenco para salvar o preço do ingresso. Carandiru mostra códigos e hierarquias do inferno de milhares de detentos. Alguém ainda contará na tela o purgatório do espectador que quer prestigiar o cinema nacional e acaba morto na sala de exibições transformada em palco de um grande piquenique. Torturado por gente sem desconfiômetros e seus sacos barulhentos. A garota da pipoca sequer perdoou os piruás – roc, roc, roc.

Como diz o personagem do livro de Dráuzio Varela, “Aqui dentro ninguém é culpado”, referindo-se à Casa de Detenção onde o médico passou 13 anos como voluntário no trabalho de prevenção à Aids. Também devo ser um chato que pensa que o cinema, hoje, é como o de antigamente. As pessoas vestiam as melhores roupas e se comportavam durante os filmes. Quando muito, chupavam drops.

O interessante é que Babenco optou por contar as atrocidades cometidas no sistema penitenciário pela ótica dos presos. Apesar de ter feito algumas seqüências primorosas, faltou emoção. Não apela para a violência gratuita – sangue mesmo, em quantidade, só pelo chão, nas escadas -, mas fica a um passo de conseguir humanizar os presos. São mais de duas dezenas de personagens, todos contando sua história, numa colcha de retalhos que merecia um detalhamento melhor. Interessante o travesti Lady Di (Rodrigo Santoro), com milhares de amantes na cadeia, apaixonado pelo ex-viciado Sem Chance (Gero Camilo). Ou o negão Majestade (Aílton Graça), comandante do tráfico de drogas na cadeia, que tem duas mulheres, uma branca e outra mulata. Há também personagens reais como Rita Cadillac, rainha do presídio, e o rapper Sabotage, assassinado este ano. Babenco não quer mostrar quem é mais culpado, mas como a vida se mostrou para essas pessoas.

Quem viu o massacre pela TV tem em Carandiru a chance de tentar entender o que se passa em um lugar visivelmente prestes a explodir. Nada de olhar antropológico: sem o distanciamento que normalmente o espectador tem quando vê filmes do gênero, Carandiru começa meio devagar, mas termina como um tapa na cara. O filme acerta não por responder perguntas, e sim por levantar questões, sem exaltar a violência e o submundo que o público desconhece.

O diretor não procura culpados pelo massacre de 1992. Oficialmente 111 presos foram mortos pela polícia militar que invadiu o pavilhão 9 para conter uma rebelião. Como diz Babenco, “não me preocupei em fazer investigação policial. Se não coloquei o nome do governador da época (Fleury), não era para saber quem fez, mas o que se fez”.

Acho o filme necessário, como o livro de Dráuzio - são obras autônomas. Dá pra assistir. Compre no saguão um saco de pipocas dos grandes e preserve ligado o seu celular. Infernize o próximo antes que ele derrube a latinha de Coca Cola no seu pé. Só assim entenderá o quanto sofrem presos condenados a viver em espaços ainda menores que o ocupado por uma poltrona de cinema. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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