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Corpo novo! Cabeça nova?

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Há pouco mais de uma década, as cirurgias bariátricas (de redução de estômago) vêm causando uma revolução nos corpos dos portadores de obesidade mórbida. Pessoas com muitos mais de 100 quilos desfilam corpos de 60 e até 50.

Entretanto, a grande questão que paira sobre o assunto é como fica a cabeça de um operado, muitas vezes comedor compulsivo e que em questão de horas teve a capacidade de seu estômago reduzida para 10% ou até 1%? Em Bauru, um grupo de profissionais procura reverter os problemas e os questionamentos de pacientes em estágio pré e pós-operatório.

O encontro é quinzenal, sempre nas noites de segunda-feira. A primeira meia hora é um momento de integração informal, onde os novos visitantes se apresentam e quem já é da casa tira suas dúvidas ou comemora um novo estágio de adaptação.

A necessidade de trocar experiências surgiu quando a dentista bauruense Aline Nahás Matiello, pesando 112 quilos submeteu-se à cirurgia em São Paulo e ao voltar para casa começou a procurar pessoas que tivessem passado pelo mesmo procedimento.

Ela encontrou Edna Maria Barros Ribeiro que, como ela, também havia feito cirurgia em outubro de 2001, e a amiga de spa Evelyse Cristina Grava, que foi operada em Piracicaba com 103 quilos, quatro meses depois.

Juntas, depois de muito conversar e matar a curiosidade das pessoas que as abordavam na rua, somaram forças e buscaram profissionais (psicólogas, nutricionista, professora de educação física, médico e até assistente social) que pudessem dar apoio à mudança de seus corpos, que mudaram muito.

Aline que começou a ganhar peso na adolescência pesa hoje 76 quilos e Evelyse, gordinha desde bebê, exibe 55 quilos. Edna faleceu alguns meses depois, com complicações em uma cirurgia plástica.

“Nós queríamos facilitar a vida das pessoas, pois passamos por situações sem ter o esclarecimento que proporcionamos hoje para quem está operado e para quem quer operar”, explica Aline, revelando que as principais complicações foram a queda de cabelo e problemas na pele.

Entretanto, hoje elas admitem que como comedoras compulsivas e profissionais das dietas, os primeiros 30 dias de dieta líquida é um período enlouquecedor. Mas como se consideravam “mortas”, valia qualquer sacrifício.

“Hoje, eu sinto que foi a melhor coisa do mundo, a luz no fim do túnel mesmo. Me arrependo de não ter feito antes, mas acredito que se tivesse um acompanhamento quando fui operada meu aproveitamento seria muito melhor”, comenta a dentista que luta contra o ímpeto de comer além de seu limite.

Afinal, para as cirurgias cumprirem perfeitamente seu papel de eliminar de 30% a 50% do peso total do paciente é preciso colaboração e disciplina.

Mudança de hábito

A professora Evelyse, que nunca foi magra e hoje exibe uma forma invejável, conta que após a operação seu comportamento mudou radicalmente. Ela aprendeu a comer frutas, verduras e legumes no lugar dos lanches e doces de antigamente. É claro que ainda hoje ela se permite o prazer das guloseimas, mas tudo na medida certa.

Psicologicamente, a alegria de emagrecer fez com que ela sempre seguisse à risca cada etapa do pós-operatório e curtisse cada quilo perdido.

“É claro que o prazer da comida é único, mas aprendi a canalizar o prazer para outras coisas. Antes eu não saía de casa, tinha vergonha. Academia? O que eu ia fazer lá? Hoje, a minha auto-estima é outra, posso entrar numa butique e escolher o que gosto, tenho vontade de passear. Antes, eu queria me esconder, hoje quero mais é aparecer” (risos).

A assistente social Ana Claudia Furlan explica que a pessoa opera o estômago, não a cabeça. Por isso, é preciso acompanhamento e motivação. “Eles não se vêem desesperados, mas tudo o que é mudança assusta um pouco.”

A operada Aline acrescenta que a amiga Evelyse conseguiu uma mudança de vida que ela ainda luta para conquistar e driblar a frustração de não poder comer, pois seu estômago não comporta tudo o que os olhos vêem.

“Eu ainda estou com aquela cabeça de comer de tudo, nunca fiz regime, emagreci 36 quilos comendo de tudo, mas sofro os reflexos naturais do meu abuso. Milagre só Deus faz. A cirurgia cumpriu a sua parcela, agora eu sou responsável pela minha meta.”

Ela explica que o vômito e os calafrios foram uma constante e só depois da formação do grupo de apoio, que hoje se denomina Centro Integrado de Tratamento da Obesidade de Bauru (Citob), está revertendo um quadro de cobranças pessoais e da sociedade. “Todo mundo acha que você vai sumir da noite para o dia. E não é assim.”

A psicóloga Eliana Araújo aponta que o paciente precisa decidir-se por inteiro e o grupo ajuda a trabalhar o lado emocional que, por mais que a cirurgia seja drástica, será sempre o mais afetado.

Fome zero

O término da fome é o primeiro sintoma apresentado pelos pós-operados do Citob à nutricionista Cibele Barbosa, que os acompanha geralmente por um mês antes da cirurgia. Mas a primeira pergunta é sempre: “Quando vou poder ir a uma festa, um churrasco ou um casamento?”

Geralmente, depois de um mês, o paciente está liberado. “O problema é a vontade que ele vai ter de comer e a sua capacidade de se controlar diante do primeiro evento.”

O teste pode ser doloroso, por isso se trabalha para que o processo não seja traumático. Por outro lado, ela revela que muitos não aceitam a nova fase, não seguem as orientações e mesmo aparentando felicidade, acabam por comer e chegam até a perder a cirurgia, necessitando de nova intervenção.

Isso ocorre porque no procedimento mais executado no País, a cirurgia de Capella, o estômago é reduzido a 20ml, o equivalente a uma xícara de café e são feitas várias refeições líquidas por dia no primeiro mês. Mesmo assim, o paciente acaba abusando.

“A ansiedade natural dos obesos faz com que eles pulem etapas e não esperem a fase certa para se alimentar normalmente. Um operado poderá comer de tudo, desde que no seu limite.”

Neste processo quem comemora os resultados é a professora de educação física Ivana Fonseca que desenvolve uma série de exercícios para cada caso e cria um universo lúdico para convencer e estimular pequenos movimentos que chegam a se transformar em horas de atividades físicas.

“Eles aprendem a gostar do exercício e o que é melhor, se conscientizam da sua importância, o que é fundamental”

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Abrindo o jogo

Poucos minutos após às 20h, a sala do grupo de apoio está cheia e começam as apresentações. O Citob que existe há cinco meses, não tem fins lucrativos, nem cobra nada de seus participantes, recebe novos participantes a cada reunião.

João Fábio, que está em fase pré-operatória participava de sua primeira reunião. Luiz Fernando, que fez a cirurgia em dezembro de 2001, com 131 quilos, voltou depois de “longas férias”. A mãe da professora Evelyse também participava. Marilaine estava feliz com sua operação a pouco mais de um mês. Para comemorar os 50 dias de cirurgia, Claudia levou a mãe Cleide. Renata marcava quatro meses de pós-operatório. Luis Antonio é assíduo há desde o início e se prepara para reduzir o estômago e esquecer que já pesou 230 quilos. Silmara estava na segunda reunião e Sílvia foi conhecer o grupo.

Durante quase duas horas, eles debatem as diferenças entre os procedimentos sofridos Scopinaro ou Capella com o cirurgião gástrico Wagner Schwerdtfeger, que tira as dúvidas sobre os problemas mais freqüentes como a queda de cabelo e alterações na pele, provocadas pela mudança drástica de alimentação.

Todos dizem se sentir bem e estarem felizes com o ponteiro da balança na descendente. Um ou outro não consegue ingerir determinado alimento. Muitas vezes, o medo e a habitual velocidade para comer e não mastigar dos tempos de obeso acaba por provocar tais privações momentâneas.

Todos confessam que se saciam com mais facilidade, mas admitem que a cabeça ainda está em trabalho de desaceleração.

A psicóloga Eliana Araújo, feliz pela média de 25 participantes por encontro, promete trabalhar a cabeça de cada um para libertá-la da dependência da comida. Ela comemora os progressos de cada um.

E por mais incrível e radical que pareça, a reunião tem até suco e biscoitinhos.

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