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A dura batalha das reformas


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Lula da Silva está mergulhado em otimismo. Jânio de Freitas pega bem o tom: “Todos os dias, discurso de empolgação, de promessa, quando não são dois ou três no mesmo dia. Mas não fora o seu otimismo, Lula talvez pudesse perceber que seus discursos já não produzem efeito. Ou por desgaste dos discursos mesmos, ou por que a disposição de considerá-los vai se transformando em interrogação”.

O novo cenário vai se delineando no Planalto. José Dirceu no comando político do governo, e Antônio Palocci no comando da economia. Lula, estreitando contatos, papeando aqui e ali, fazendo seus discursos. Dando rédea solta à marquetagem. Pensa até em viajar pelo Brasil afora, como durante a campanha eleitoral. Ainda se delicia com a tirada do “Lulinha paz e amor”. A vida econômica nacional vai bem para os detentores do capital. Bancos, especuladores, “os que enriquecem com os juros aplicados à dívida brasileira estão ganhando ainda mais”. Vai mal para os assalariados. As surpresas do novo governo não nos alentam.

Ficou famosa na história dos confrontos das forças progressistas contra o poder autoritário, durante o regime militar, a greve dos professores e funcionários de São Paulo no final dos anos 70. Reivindicavam, junto ao biônico governador Maluf, 70% de reajuste nos salários. A greve se estendeu por vários meses. Conclusão: Paulo Maluf, com toda “cara de pau” que Deus lhe deu, concedeu ironicamente um reajuste de 70 cruzeiros. Ainda brincou: “Vocês não queriam 70?”

A oposição petista intransigente, até o ano passado, exigia de FHC, insuflando os servidores federais, um reajuste, com recomposição salarial, de 74%. Lula da Silva concedeu 1% de reajuste e R$ 66,00 de quebra. Não cobre a inflação dos últimos 12 meses. Pior que Maluf, nos anos 70. Maluf deu uma gozada boa nas lideranças progressistas. Agora, Lula da Silva jogou pesado. Nem um pequeno chiste, nem uma risadinha irônica para seus funcionários e eleitores. É o estilo cascateiro e linha dura dos novos donos do poder. Os conversos neoliberais deixam Lula fazer suas piadas para o grande público. As bases radicais e corporativas do PT são tratadas a pauladas.

Não precisamos nem lembrar da chegada do salário mínimo de R$ 240,00 . Onde foi parar a luta histórica pelos US$ 100?

José de Alencar, o vice-presidente, deu o tom crítico, no balanço dos cem dias: “O Brasil não vai tão bem assim. Temos que fazer alguma coisa para ajustar a economia brasileira para que volte a crescer, a gerar empregos e distribuir renda. A cada dia o salário é mais achatado, além do desemprego”.

Foi uma pegada forte. Não adiantou muito convocar a economista Maria da Conceição Tavares para defender, junto às bases parlamentares do governo, a correção da política econômica. Os ânimos não estão calmos. Os radicais e a oposição começam a alongar suas críticas. Até um tucano radical, como o Luiz Carlos Mendonça de Barros, mostrou sua preocupação, em debate recente. “Lembrei ao ministro José Dirceu a necessidade, além de manter a austeridade fiscal e o compromisso com a estabilidade dos preços, de construir uma política econômica que reduza, estruturalmente, nossa dependência externa de capitais financeiros voláteis e de seu irmão siamês, que é a política de juros internos elevados.” E arrematou: “Minha caixa de surpresas revelou-se maior ainda do que a percebida no debate. Em relatório oficial, o FMI fazia o mesmo alerta!” É um quadro difícil para aprovação das reformas. Lula prometeu remeter imediatamente as propostas de reforma ao Congresso. Cabelos embranquecerão nos próximos meses... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

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