Os homens que as seguravam controlariam mais facilmente a descida. Embiquei a Kombi ladeira a baixo, engatei a primeira marcha, retesei os músculos da perna direita e pisei fundo no breque; agora não tinha mais retorno, era seguir em frente, deixando nossa segurança por conta de Deus. Mergulhão caçando peixes à nossa frente, emitia aqueles quá, quá, quá, como achando graça da labuta sem fundamento; ao lado um João de barro com a cabeça fora de sua casinha feita de argilas catadas nas beiradas das lagoas fazia coro, emitindo cuí, cuí, cuí. Soltei de leve o breque, a Kombi estremeceu e começou a descer. As cordas se retesaram; acenei para os homens ir soltando-as lentamente. Quando o peso da frente do veículo alcançou o tablado ele afundou até cobrir de água metade das rodas dianteiras, ameaçando afundar.
O pessoal lá em cima firmou as cordas, elas ficaram tão esticadas que chegavam a vibrar, mas conseguiram evitar o afundamento de minha valente Kombi.
O Jacson e Marcelo haviam amarrado as canoas numa forte raiz exposta bem juntas ao barranco para elas não se afastarem ao receber o peso total da carga. Para nivelá-lo oito homens dos mais rechonchudos, alguns da fazenda, se postaram do lado oposto à inclinação do tablado, enquanto os de cima puxavam as cordas até voltá-lo à posição normal.
Meio desequilibrados conseguimos embarcar a Kombi, já pensando desanimados na volta; resolvemos: por aqui não mais viríamos. Tínhamos a opção de fazê-lo através da balsa, dando uma volta de uns cinqüenta quilômetros.
Carga acomodada, ligamos os motores de popa e descemos devagar em direção à outra margem do rio bem a nossa frente, único acesso aos lagos piscosos da fazenda “Lago Verde”.
Eu e o “Beca” pilotávamos os dois motores de 25 hp, o “Zé” Toline, Jacson e Marcelo iam tocando o fundo do rio com os varejões avaliando sua profundidade para que não encalhássemos n’algum banco de areia.
Não podíamos imprimir maior velocidade, devido à carga estar oscilante e assim as correntezas nos desviaram da reta, deixando-nos em diagonal em relação aonde deveríamos parar. Aceleramos mais um pouco e começamos a subir, orientados pelos guias que sondavam a profundidade do rio.
Súbito bate de encontro a um banco de areia que os guias não conseguiram detectar, quase nos atirando fora. Parada brusca fez uma das amarras dos barcos se soltar, separando-os de seu paralelismo, eles se separaram, ficando uma das rodas fora do tablado, ameaçando tombar rio à dentro. Saltamos incontinente, rasas que estavam as águas naquele ponto. Como éramos poucos para voltar o pesado veículo à posição anterior, acenamos para outros empregados da fazenda que nos acompanhavam da praia.
De imediato chegaram noutro barco e começamos a complicada tarefa de nivelar a carga. Conforme a força que fazíamos para levantar o lado oblíquo, os barcos mais se separavam, tornando grave a situação.
Uns sessenta metros nos separavam do porto e como a distância era de profundidade rasa achamos melhor subir devagar, enquanto os homens iam sustentando o peso inclinado com as mãos e assim conseguimos aportar.
Daí até o “Lagoão” tínhamos apenas 8 quilômetros; fomos escoltados pelo jipe do senhor Galdino que sempre fora nosso anfitrião e juntos fizemos memoráveis pescarias. Ficamos acomodados numa casa sobre palafitas às margens do lago que mais uma vez nos propiciaria bons resultados... (Felisdeu Leão é pescador e contador de histórias)