As bombas inteligentes, que tão burras parecem, são as que mais sabem. Elas revelam a verdade da invasão. Enquanto o norte-americano Donald Rumsfeld dizia: “Estes são bombardeios humanitários”, as bombas destripavam crianças e arrasavam mercados de rua. Os invasores procuravam as armas de destruição em massa que venderam, quando o inimigo era amigo, ao ditador do Iraque, e que foi o principal pretexto para a invasão. Até agora, que se saiba, não encontraram mais que armas de museu. Mas, são armas de construção maciça os mísseis gigantes que eles disparam? Os invasores têm à vista as armas tóxicas e as armas proibidas: as usaram. O urânio empobrecido envenena a terra e o ar e os estilhaços de aço das bombas de fragmentação matam ou mutilam em um raio que vai muito além de seus alvos.
E nem bem haviam aparecido os primeiros mísseis nos céus do Iraque quando já se havia cozinhado o governo de ocupação, democrático governo integralmente formado por militares dos Estados Unidos, e já se fazia a divisão dos despojos dos vencidos. Ainda se continua disputando o botim, que não é pouco: as fabulosas jazidas de ouro negro, o grande negócio da reconstrução do que a invasão destruirá.
E que parte caberá a mim, perguntam alguns membros da coalizão. Mas, que coalizão? Os cúmplices desta missão libertadora, que são quarenta, como no conto de Ali Babá, integram um coro onde abundam os violadores dos direitos humanos e as ditaduras. E de onde se lançou a cruzada? Onde estão situadas as bases militares dos Estados Unidos? Basta lançar uma olhada no mapa: essas monarquias petrolíferas, inventadas pelas potências coloniais, se parecem tanto com a democracia quanto Bush se parece com Gandhi. É uma aliança de dois. Um que acredita no império de hoje, e outro que encolhe. O império de ontem. Os demais servem o café e esperam a gorjeta. Esta aliança de dois pela liberdade do petróleo, que o Iraque nacionalizou, nada tem de novo.
Em 1953, quando o Irã anunciou a nacionalização do petróleo, Washington e Londres responderam organizando, juntos, um golpe de Estado. O mundo livre ameaçado fez correr sangue e o xá Pahlevi, estrela das revistas românticas, converteu-se no carcereiro do Irã durante um quarto de século.
Em 1965, quando a Indonésia nacionalizou o petróleo, Washington e Londres também responderam organizando, juntos, um golpe de Estado. O mundo livre ameaçado instalou a ditadura do general Suharto sobre um montanha de mortos. Meio milhão, segundo cálculos mais conservadores. De cada árvore pendia um enforcado. Todos comunistas, explicava Suharto. No ano passado, Ana Luisa Valdés esteve em Jenín, um dos campos de refugiados palestinos bombardeados por Israel. Ela viu um imenso buraco cheio de mortos sob os escombros. O buraco de Jenín tinha o mesmo tamanho que o das torres gêmeas de Nova York. Mas, quantos o viam, além dos sobreviventes que revolviam os escombros procurando pelos seus? O presidente, que não foi ao Vietnã graças ao papai e que só conhece as guerras de Hollywood, manda matar e manda morrer. Não em nosso nome, dizem os familiares das vítimas das torres. Não em nosso nome, clama a humanidade. Não em meu nome, clama Deus. (O autor, Eduardo Galeano, é escritor e jornalista uruguaio, autor de “As Veias Abertas da América Latina” e “Memórias do Fogo”)