A crise envolvendo a empresa Comercial Bom Bife e a Prefeitura Municipal de Bauru já afeta pelo menos uma das creches da cidade. O município pagou, mas ainda não recebeu, 74.789 quilos de carne. Na creche-berçário São Francisco de Assis, no Parque Santa Edwirges, o estoque está zerado. A creche atende a 120 crianças.
O presidente da creche, Paulo Sérgio Canalli, diz que a situação é muito grave. “Hoje (ontem), as crianças comeram salsicha junto com o macarrão porque os funcionários fizeram uma doação e compraram quatro quilos no supermercado. Se a situação não se normalizar no início da próxima semana, serei obrigado a suspender o atendimento.”
Ele afirma que já entrou em contato com o promotor da Infância e da Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira. “No dia 3 de abril procuramos pela prefeitura e fomos avisados de que que ela não teria condições de atender nossas necessidades. Diante disso, buscamos a ajuda do promotor.”
Oliveira já pediu explicações ao prefeito. “Enviei um ofício solicitando que a situação seja normalizada. Pedi a ele que faça isso o mais rápido possível. Vou aguardar uma resposta até quarta-feira”, explica o promotor.
O chefe de Gabinete da prefeitura, Antônio Sérgio Marsola, afirma que a situação já está sendo solucionada. “A creche vai voltar a receber a carne normalmente.”
Para ele, está havendo um exagero nas reclamações de Canalli. “A entidade dele é particular e nós não teríamos nenhuma obrigação de ajudá-lo. Mesmo assim, fornecemos quatro professores, quatro estagiários e um auxiliar, além de uma verba mensal de R$ 2,4 mil. Também pagamos a conta de energia elétrica e entregamos em fevereiro R$ 805,00 em alimentos. É preciso entender que no início do ano letivo sempre ocorrem problemas de distribuição.”
Paulo Canalli rebate a informação de Marsola. Afirma que a creche não é particular, é conveniada à Prefeitura Municipal e tem, inclusive, título de utilidade pública.
Pouca carne
Segundo Canalli, o problema já vem se arrastando desde o ano passado. “A nossa nutricionista diz que uma creche como a nossa, que atende 120 crianças, precisa de 140 quilos de carne por mês. Em setembro, por exemplo, recebemos apenas 80. Desde que voltamos das férias, em fevereiro, ganhamos apenas 30 quilos de carne moída. Neste mês, ainda não veio nada.”
O vice-presidente da Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social de Bauru, Uriel de Almeida, acredita que outras entidades também podem ser afetadas. “As que trabalham com crianças dependem bastante da merenda fornecida pela prefeitura. Se ela não vier, terão que dar um jeito de suprir essa ausência.”
Paulo Sérgio Canalli explica que a creche é o único local em que as crianças podem se alimentar bem. “O bairro é um dos mais carentes da cidade e elas chegam aqui sem café da manhã. Também fornecemos o almoço, o lanche da tarde e até o jantar. As mães deixam os filhos aqui às 7h e eles só saem depois das 17h30.”
A reportagem tentou localizar a presidente do Conselho Municipal de Alimentação, Maria Aparecida de Oliveira Santini, mas ela não foi encontrada para falar sobre o assunto. O órgão é responsável pela fiscalização, controle e aplicação das verbas federais da merenda.