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Sexta Santa mescla clima de férias e fé

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

Já não se tem mais uma Sexta-feira da Paixão como antigamente. As pessoas não passam tantas horas em vigília nas igrejas, as bacalhoadas de família se resumem no self service e com um feriado de quatro dias, muita gente pensa que está em férias e deixa a reza para depois da cervejinha com os amigos à mesa de um bar.

Na contramão da tradição, muita gente também trabalha ao invés de guardar o dia santo. Pela manhã, a reportagem do JC realizou uma pequena via sacra percorrendo algumas das igrejas que costumam ficar lotadas nas datas religiosas. O Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na Vila Antártica, era um dos templos mais cheios, mas não havia pessoas em pé ou espremidas nos bancos.

No momento da visita, a Catedral do Divino Espírito Santo, no Centro, abrigava apenas 14 fiéis e tinha só uma das três portas abertas. Há alguns anos, a Paróquia de São Benedito adotou um dos salões para a adoração do Santíssimo, dessa forma consegue receber os fiéis de maneira aconchegante e manter a casa cheia. Já o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Estoril, encontrava-se fechado.

Mas poucas quadras adiante, na avenida Getúlio Vargas, os bares especializados ou que serviram peixes especialmente para a data pareciam viver tardes de férias ou happy hour antecipado para a metade do dia. Entre os que quiseram cozinhar em casa, tinha muita gente que não dispensava a cerveja ou a caipirinha.

“Deus perdoa. Ele mesmo gostava de vinho. Se ele tivesse conhecido cerveja, saberia que não dá para resistir a um peixinho, um limãozinho e uma cerva geladinha”, disse Jean Saraiva, que almoçava com a namorada Jacqueline Andreoli.

Ele afirma que é católico, tem hábito de ir à igreja e guardar dias santos, até porque sua mãe está sempre lhe lembrando, mas aponta que o feriado prolongado deu a ele um ar de férias.

Quem também curtia o clima de happy hour era um grupo de amigos liderado por Almir Ortelan, que tomava cerveja acompanhada de bolinhos de bacalhau.

“Deus vai nos perdoar. Eu até pensei em ir à missa, mas lembrei que hoje é o único dia em que elas não são celebradas. Com um feriado tão emendado, pouco se lembra do espírito da data”, comenta.

Longe do fogão

Em dia de jejum de carne, as churrascarias que abriram suas portas optaram por um cardápio baseado em peixes e frutos do mar e as pessoas respeitaram o costume.

O churrasqueiro Baltazar Motter revela que menos de 20% dos clientes optaram por carnes vermelhas. Em compensação, a casa caprichou nos pratos com bacalhau e na dourada, pintado e pirara na brasa.

A maioria dos freqüentadores afirma que um dos motivos que os levaram a sair de casa para comer principalmente a bacalhoada é a trabalho de preparo que o prato requer.

“Hoje é o dia do bacalhau”, anunciou Valdenir Sanvezzo, que levou a família para almoçar fora e respeitar a tradição do dia santo. “Quando a gente é mais jovem não dá tanta atenção, mas ao ficar mais velhos, ficamos mais críticos e respeitamos mais.”

Muitos também procuravam guardar a data e faziam o sacrifício de comer pouco, como Maria Marlene Bonfim. “Comi apenas um pedaço de peixe e arroz.”

Ela comenta que atualmente é difícil encontrar pessoas que guardem toda a Quaresma, mas a sexta-feira é quase uma obrigação.

“Hoje essa história de Páscoa, com ovos de chocolate e feriado, quebra um pouco o espírito sagrado. Mas seria um horror ter que fazer aquela bacalhoada como a minha avó fazia antigamente para a família. O bacalhau já não é mais o mesmo, a couve você nem encontra mais. É preciso cuidar do sagrado, mas o prato pode ser pronto, sim”, afirma Maria de Lourdes Segalla.

Em dia de peixe com cara de férias, os pesqueiros foram a opção adotada por muitos que queriam unir o útil ao agradável, ou a devoção à diversão.

Sérgio Sakai, proprietário de um pesqueiro revela que desde cedo seus lagos estiveram cheios de pescadores. Muitos foram fisgar o peixe para o almoço, mas outros preferiram a mordomia do cardápio da casa.

O empresário comenta que o movimento foi 100% superior a um feriado normal. De quinta-feira até o início da tarde de ontem havia comercializado cerca de 200 quilos de pescado, seja fisgado pelo próprio consumidor ou colocado à venda fresco e limpo ou já preparado.

Liturgia

Mesmo com o clima de festas, às 15h, horário que os cristãos adotam como o da morte de Jesus, as igrejas católicas ficaram lotadas de fiéis que participaram das liturgias de adoração e em algumas paróquias puderam assistir encenações da via sacra.

Hoje muitas igrejas dão continuidade ao feriado santo com a solene Vigília Pascal. Na Catedral, a cerimônia terá início às 20 horas. Amanhã, domingo de Páscoa, serão realizadas missas especiais às 7h30, 10h e 19h.

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