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Para Tobias, Lula abraça ações tucanas

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) quebra o silêncio estratégico dos tucanos que parece existir entre os principais líderes do partido ao avaliar o governo Lula. Para Tobias, os petistas desceram do palanque e sentaram na cadeira do poder para assinar projetos de governo elaborados pelo PSDB. Com isso, o tucano alfineta que os petistas estão derrubando as pedras das mãos para encarar a realidade do governo.

Pedro Tobias garante que torce para que o governo do novo presidente da República dê certo. Mas ele critica que Lula corre o risco de não dizer a que veio. O deputado estadual ainda alfineta que a única área do Governo Federal que tem programa definido é o Ministério da Fazenda. “Isso porque o Palocci está implementando as mesmas diretrizes traçadas pelo Fernando Henrique. É a única área que está funcionando e que tem projeto. Até porque é o mesmo projeto elaborado pelo Fernando Henrique”, cita.

Leia na entrevista abaixo os principais pontos de vista de Tobias sobre o governo petista e sua avaliação sobre os problemas da cidade e o governo Nilson Costa (PPS).

Jornal da Cidade - O governador disse que para o Estado construir casa aqui em Bauru, o município precisa dar terreno. Porque o Estado não constrói casas aqui desde 1996? Pedro Tobias - Não é culpa de escritório regional da CDHU essa questão. Já nos primeiros quatro anos de mandato, que ainda contou com o período Covas, já estava autorizado programa para 2.000 casas para Bauru. Mas o governador está certo. É preciso que o prefeito viabilize os terrenos. E é preciso o terreno doado pelo Município porque são casas para a população de baixa renda. Se passa esse custo para a empreiteira, o projeto encare muito e fica mais distante dos mais pobres. E é a população de baixa renda que precisa. Os programas para a classe média já existem através de outras fontes. A partir do instante em que o governador assumiu, ele manteve o sinal verde para esses projetos. Mas até agora o Município não disponibilizou o terreno.

JC - E como o senhor vê então essa dificuldade do município em viabilizar projetos com o Estado? Tobias - O governador da cidade é o prefeito. Se a prefeitura não viabiliza, os projetos não saem do papel. Mesmo com a iniciativa privada é o prefeito quem decide, quem define. O prefeito é o porta-voz da população na cidade. É ele quem deve elaborar os projetos, fazer o planejamento de governo e colocar os projetos na rua. É o caso dos projetos com moradias. O Estado tem o programa aprovado para a cidade, mas se o prefeito não quer, o governador não pode fazer nada. Quem manda na cidade é o prefeito. Ele é quem tem o mandato. Como deputado eu sempre estive à disposição para ajudar a cidade e o prefeito nunca me procurou. Eu tenho trabalhado pela cidade junto com o governador. Veja os Lotes Urbanizados, que estão abandonados desde 1991. Os lotes precisam ser reaproveitados e o prefeito poderia discutir um programa com o Estado para essa área. Os lotes estão com a infra-estrutura estragando e Bauru ainda vai pagar essa conta por 50 anos. Na época, eu era vereador e quase fui linchado, mas votei contra esse programa.

JC - Essa dificuldade de relação política prejudica a cidade? Tobias - Do lado do Estado nós estamos fazendo, acho, que muito bem a nossa parte. O Estado voltou a investir muito em Bauru e na região e como nunca nesses últimos anos. Só o Hospital Estadual rendeu investimento de R$ 57 milhões, fora os empregos que gerou e a estrutura de referência na área de saúde que o projeto conferiu à cidade. Teve o Instituto da Mama, que nós conseguimos, e o aeroporto internacional, que está em construção e vai ser entregue. No varejo administrativo é preciso que o prefeito faça os pedidos para o Estado, procure o deputado e encaminhe os projetos para a cidade. O prefeito não pede para ele, pede para a cidade. O governador esteve aqui há alguns dias e comentou que o único prefeito que não faz nenhum pedido nas visitas é o de Bauru. Os demais prefeitos pedem duas, três vezes. Veja, tem que pedir mesmo, cobrar. O orçamento é apertado e não dá para atender a todos os pedidos. Então quem não pede tem muito pouco. O governador repassa mais de R$ 500 mil por mês para o Hospital de Base.

JC - Mas o Estado continua falhando em questões pontuais. Um exemplo é o transporte de alunos do Estado? Tobias - Eu conheço este problema e estou acompanhando desde o ano passado. O prefeito está fazendo só para provocar o Estado porque os maiores problemas estão no distrito de Tibiriçá. Os ônibus de transporte pagos pelo Município andam vazios nesse trecho, ou com vagas sobrando. Então eu pergunto, qual o problema em levar as crianças de escolas estaduais? São crianças bauruenses e também precisam estudar. Os ônibus levam só crianças de primeiro grau porque o prefeito fala que não é obrigação dele levar as crianças do segundo grau. Isso é uma provocação desnecessária. Não tem cabimento colocar outro ônibus para levar as crianças que faltam se existe vaga nos ônibus do Município. O problema parece que está sendo resolvido na Justiça. A única zona rural nossa com demanda grande é Tibiriçá, que é distrito. Não tem sentido o prefeito não usar o bom senso com essas crianças. É um problema fácil de resolver. De outro lado, ele não resolve os problemas da cidade em outras áreas.

JC - Porque a verba para construir um ginásio no Mary Dota não foi usada? Tobias - No final do ano passado eu verifiquei e a verba estava disponível na CEF para o Município usar. Tem que perguntar para o prefeito porque ele não usou essa verba do orçamento federal até agora. A verba foi uma emenda do deputado José Aníbal. Agora, com a mudança do governo e a chegada do PT, essas verbas foram cortadas para esperar definição do novo programa de governo. Como o Nilson Costa é do PPS, que apóia o governo Lula e faz parte do governo, ele talvez vá agora atrás do PT para pedir que esse dinheiro seja liberado. Nós deixamos tudo pronto para o prefeito usar. Ele não usou não sei por quê. Acredito que o PT vá ajudar Bauru porque o prefeito apoiou, ajudou na eleição.

JC - O governo Alckmin já tem sua cara administrativa completa? Tobias - Sim, o governador mudou quase todo o secretariado, está mudando cargos nas autarquias e já está fazendo mudanças em cargos de terceiro e quarto escalões. O Geraldo Alckmin está fazendo o governo com a cara dele, porque foi ele quem venceu a eleição. Isso é natural. Outra questão é que manter o mesmo pessoal por mais de cinco anos nos cargos cansa, acomoda. É preciso dar uma oxigenada, mesmo que seja para mexer daqui e colocar ali. O governo do Alckmin é a gestão do trabalho. Ele cobra, anota tudo. Ele é educado, mas cobra resultado dos secretários pessoalmente. Eu já reclamei de algumas ações que não estavam andando e ele cobrou o secretário pessoalmente. A marca do Geraldo é o empreendedorismo, a educação, e ele quer o governo prestando bons serviços para a população. Está na Assembléia um projeto autorizando US$ 20 milhões para modernizar o sistema da máquina administrativa. Todas as compras, projetos, instalações, obras, arrecadação, estarão na internet a qualquer tempo. Hoje esse sistema já é disponível para os deputados. Agora vai também para a população. A compra eletrônica já resultou em economia de mais de 20% em aquisições feitas pelo Estado.

JC - O que mudou na relação do PSDB com a bancada petista na Assembléia com a vitória do Lula? Tobias - O PT continua tendo uma boa estrutura de apoio parlamentar. A questão é que o PT agora virou vidraça. Já era vidraça em São Paulo e agora está experimentando o governo Lula. Para comunicar aumento de 1% para o funcionalismo público federal eles tomaram muito cuidado. Porque os deputados sempre defendiam aumento mínimo de 40%. Na Assembléia também era assim. Eles jogavam pedra em tudo. Agora precisam ficar mais na defesa. Eles acalmaram bastante. Acho bom para a democracia que o PT tenha chegado ao poder. Porque vê a realidade. É fácil jogar pedra. Se souber jogar, não dói nem a mão. Mas governar, sentar na cadeira, decidir o que e onde e com pouco dinheiro é muito difícil. O PT sempre vaiou os outros e agora está vendo a Marta Suplicy sendo vaiada pela população em qualquer aparecimento público dela. Todos os governos querem resolver.

JC - O que está dando certo no governo Lula até agora? Tobias - A única coisa que está indo bem, que está funcionando é a área da Fazenda. O ministro Palocci está indo bem. E está indo bem porque está seguindo rigorosamente as diretrizes que foram implantadas no governo Fernando Henrique Cardoso. E eram diretrizes que eles tanto criticaram. Desceram do palanque. O programa Fome Zero é muito importante, mas não tem operacionalização, não saiu do discurso. É zero até agora. Tomara que funcione, porque é um programa importante para o País. Mas precisa fazer sem demagogia e sem a preocupação de continuar executando o que deu certo no governo do PSDB. Mudaram o nome do cartão de renda para as famílias pobres porque esse programa foi instituído pelo Fernando Henrique. O governo FHC implantou o cartão bolsa-escola e eles inseriram no Fome Zero, mudando o nome. Não tem programa de governo do Lula nas ruas ainda. Eles estão só com a bandeira do Fome Zero, mas por enquanto é só bandeira. Fala um programa na área de saúde, educação que esteja funcionando. Não estou dizendo que o FHC resolveu tudo. Não resolveu. Mas o País avançou e muito. E o PT que criticou tanto agora terá que resolver. Disseram que tudo poderia ser resolvido e de forma fácil.

JC - Mas o País precisa resolver seus problemas estruturais? Tobias - Tomara que resolvam. E o PSDB já deu demonstração de compromisso com o País e disse que vai ajudar naquilo que for bom e importante. O governador Alckmin está discutindo a reforma com os demais colegas, está articulando pontos importantes da Reforma Tributária. Mas e o PT, o que fez até agora? Falaram que a queda dos juros era só uma questão de vontade política. E os juros aumentaram. Não venham falar que é a guerra do Iraque porque o dólar caiu mesmo com a guerra. Olha a realidade agora. Falaram de salário mínimo. Veja o primeiro reajuste. Falaram da Previdência, que o Fernando Henrique não reformou. O PT lutou contra durante oito anos. Agora querem fazer uma mudança muito pior que a proposta pelo FHC. Veja a proposta e compare se os sindicalistas, se os trabalhadores e os aposentados vão gostar da proposta do Lula. Para a democracia é importante que o PT experimente a cadeira do poder. Vou torcer para dar certo porque eu torço pelo Brasil. Jogar pedra é fácil. Mas é bom para a democracia ver o PT trocando a pedra pela caneta. Precisa governar. E governar é escolher a prioridade diante de pouco nas mãos.

JC - Qual o papel que o deputado vai desempenhar na eleição municipal de 2004? Tobias - Como militante e como deputado eu vou sair às ruas pedir voto para o candidato do PSDB. É certo que o partido vai ter candidato. E não só em Bauru. O governador quer candidatos em todas as cidades do Estado. O governador também quer se empenhar na campanha a prefeito do próximo ano. O PSDB de Bauru ainda não tem candidato. Tem ótimos nomes para a candidatura. Mas não tem nada definido. O partido terá sua pré-convenção, ou convenção e marcou a definição do nome para novembro deste ano. O Caio Coube, o Parreira (João) e o Garmes (Toninho) são três ótimos nomes. Mas o candidato será definido junto com o partido. Agora é natural que cada um tenha um cacife, um grupo de apoio dentro do partido. Se alguém está pensando que o partido terá dinheiro para fazer a campanha, pode tirar isso da cabeça. O candidato precisa ter peso, preencher o espaço para um bom projeto para a cidade e ainda deve estruturar o apoio financeiro para a campanha que será dura, difícil e em dois turnos. O deputado tem seu candidato, mas não pode declarar. O que, o partido escolher eu apoio e vou para a rua pedir voto. Se depender de mim eu vou trabalhar pelo consenso, para que o partido não repita o erro do passado de disputar internamente a indicação. Mas todos os interessados têm o direito de pleitear a candidatura a prefeito. O mais preparado, o mais estruturado, o que tiver o melhor projeto para a cidade será o candidato.

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