Certa vez estava no Panamá e num dos programas sociais de um congresso fiz amizade com um professor da Guatemala. A conversa enveredou pela literatura e ele me falou sobre Augusto Monterroso, seu patrício, que seria o autor do menor conto do mundo. Perguntei qual era esse conto e ele, prontamente, recitou o texto que não deve ter lhe dado muito trabalho para decorar: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.
Contei que no Brasil tínhamos Dalton Trevisan que se dedicava a encurtar cada vez mais os seus contos. Como disse o autor curitibano, seu ideal é chegar ao hai-kai, ou seja, como os poetas japoneses dizer tudo em três linhas sintéticas, com palavras harmônicas, cantantes, poéticas, sem sair do tema. E sapequei um exemplo de Dalton Trevisan nessa sua nova mania de ser breve e que ele chama de “ejaculações precoces de uma corruíra nanica”?: “A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos”.
Meu interlocutor fez um ar de desprezo e espetou: “Monterroso es muy mejor”. Me segurei para não chamá-lo de “porco chauvinista”. Preferi, no entanto, continuar no ataque. Lembrei Machado de Assis que faz falar o silêncio em “Memórias póstumas de Brás Cubas”. O personagem-título e Virgília conversam, mas não há palavras, só reticências e uma ou outra exclamação e interrogação. O título do capítulo é “O velho diálogo de Adão e Eva”. O leitor pode imaginar o que bem quiser. Ler, nesse caso, mais que nunca é ler para dentro, é ler a própria imaginação. E, ironicamente, se poderia dizer que esse é o diálogo mais intimista da literatura.
Meu já quase inimigo limitou-se a comentar que “Moterroso es muy mejor, por supuesto”. Soube mais tarde que inúmeras teses de doutorado em toda a latinoamérica procuram responder da aterradora frase de Monterroso. O que teria acontecido antes? Quem teria sonhado com o dinossauro? Nesse momento fui iluminado pelo espírito do padre Bicudo, meu professor de catecismo que também era metido a epigramático. Essa categoria de gente sintética e irônica que quer, com o mínimo, o máximo de rendimento interpretativo de seus textos. O padre dava uma bala de coco daquelas vendas pelas freiras para quem acertasse qual o menor versículo da Bíblia. Todos respondiam em coro: “Jesus chorou” (João 11, 35). O padre anulava a questão. Assim não vale”. A pergunta era repetida todos os anos e já virara folclore. De bala mesmo, só a água na boca.
Antes que o professor guatemalteco dissesse que “Monterosso” era “mejor” encerrei a conversa e me levantei com a desculpa que o pessoal estava a minha espera.
Procurei conhecer a obra de Monterroso, só de raiva. Num texto chamado “A brevidade” ele aceita que “o bom, se breve, é duas vezes bom”, mas confessa ironicamente que o escritor sintético, na verdade quer é escrever textos intermináveis, “grandes textos em que a imaginação não tenha que trabalhar, em que os fatos, as coisas, animais e homens se cruzem, se busquem ou se fundam, vivam, convivam, se amem ou derramem livremente seu sangue sem sujeição ao ponto e vírgula, ao ponto. E este ponto que neste instante me foi imposto por algo mais forte que eu, que respeito e que odeio”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)