Tribuna do Leitor

A guerra


| Tempo de leitura: 1 min

Primeiro foi com o João.

- “Vou ao mercado” ela disse.

- “Você não vai, não”, disse João.

- “Você não manda em mim. Vou sim.”

Vestiu-se com seu vestido mais lindo. Prendeu o cabelo, achou o outro chinelo e foi. Batata, cebola, pepino. Dava alguma coisa. Para quem não comia há dois dias estava bom. O dono do mercadinho até que é camarada. Ao lado do sacolão, uma caixa pequena e funda.

Os legumes que ainda não estão completamente estragados, mas que também não servem mais para o consumo, já que estão fora do padrão de qualidade, enfim, que passaram por uma mera separação. Daria para matar a fome, afinal, um pedaço de pão mataria a fome.

Ao redor da caixa, tudo aquilo que sempre quis. João chega.

- “Devolve isso, não é seu. Você não tem dinheiro.”

- “Tenho sim.” E apressa-se com o carrinho e mais algumas coisas. Um pacote de bolacha, nem era da mais cara, ou mesmo de chocolate. Mas tinha bastante. O bastante. Ao lado, uma lingüiça, uma dessas caixas de cereal que a pobre nem sabia ao certo que gosto tinha.

Foi direto para o caixa. Lá, retirou um pedaço de papel, um pedaço qualquer dos muitos que carregava junto ao corpo. Sujo. Como tudo que ela carregava. O gerente se aproximou. João, morrendo de vergonha, saiu. Fez que nem conhecia. Depois de brigar com todos, gritar e empurrar o gerente - ela era bem maior que ele - deixaram ela ir.

Com o carrinho e tudo. Não era muito. Era o bastante.

Na rua xingou João.

- “Você não manda em mim. Me deixa.”

Sentou na calçada. Comeu. Comeu cru. Comeu pepino, bolacha e cereal. Levantou, andou até a ponte e se jogou. (Magda Cruciol - RG 21688919-4)

Comentários

Comentários