Os problemas de planejamento urbano que mais tocam de perto o cidadão são as utilidades e os serviços de uso cotidiano, cuja manutenção ele paga diretamente à municipalidade responsável: água, esgoto, transporte coletivo, escola, saúde, tráfego etc. etc. Pode-se perguntar: é o seu dinheiro aplicado racionalmente nas obras empreendidas pelo governo municipal? Quando, por exemplo, a prefeitura pretende abrir uma ou mais avenidas, tem ela em mão as informações necessárias para justificar as despesas? Sabe, por exemplo, qual a densidade atual e o total da população a ser servida pela avenida? Sabe qual é o provável desenvolvimento futuro da área escoada pela avenida? Executou pesquisa de origem e destino do tráfego para conhecer quantos automóveis vão usar a nova avenida e se é justificável a construção de trevos, pontes e desapropriações?
Considerou de que modo será afetada esta avenida com o desenvolvimento de outras áreas da cidade? Foi feito um cálculo realista do custo da obra? Foi feita uma programação adequada de sua execução? Qual a prioridade desta em relação a outras necessidades da cidade? É mais importante resolver já o congestionamento do tráfego ou a falta de lugares nas escolas? E postos de saúde para centenas de pessoas e crianças? Em quanto tempo esta avenida vai ficar obsoleta? Foram observadas as causas e estudados os tempos de obsolescência de outras avenidas da cidade?
Quantos dos senhores detentores de cargos burocráticos usam no dia-a-dia o transporte público, uma saúde pública, uma escola pública para seus filhos serem transportados em ônibus coletivo?
São simples exemplos de que sem planeamento em conjunto não haverá serviços prestados à comunidade na razão direta das expectativas.
Um planejador não é um profissional que formula, através de órgãos da imprensa escrita e falada, soluções para os problemas urbanos ou procura difundir certos princípios urbanísticos, empreende campanhas em prol de melhoramentos cívicos, serve de porta-voz aos reclamos das cidades. Este é um historiador de urbanismo, pode até ser um ótimo jornalista.
Não é também aquele que conhece toda a história do desenvolvimento das cidades, capaz de traçar com segurança o projeto original de Washington ou a planta de Madrid. Este é um historiador de urbanismo, pode até ser um ótimo historiador de urbanismo. E não é aquele que, estudando a fundo o problema das favelas, pesquisa as suas origens, preocupa-se com o desemprego, a ecologia humana, o desenvolvimento educacional, o índice de criminalidade. Este é um sociólogo urbano, pode até ser um ótimo sociólogo urbano.
E não é aquele que é capaz de desenhar um excelente edifício ou um lindo conjunto de edifícios, fazer bonitos jardins, parques, oferecer interessantes aspectos construtivos e uma boa proporção nos espaços positivos e negativos e também uma descrição literariamente bem apresentada; este é um arquiteto, um profissional apto a desenvolver um programa formulado dentro de um esquema geral; pode até ser um ótimo arquiteto.
O planejador não é, portanto, nada disso. Nada tem a ver com jornalismo, história, sociologia ou com urbanismo.
Planejar significa fazer certas coisas. Este fazer resulta na formulação de planos de ação. É, por isso, importante ter claro na mente a diferença entre planos e planejamento. Fala-se de planejamento como sendo uma maneira de decidir sobre problemas de um modo mais ou menos racional; planos são os documentos que incorporam estas decisões.
O planejamento é um processo dinâmico; os planos tendem a ser estáticos; eles são impressos, coligidos em livros, lidos, colocados nas estantes, etc...
O planejamento não pode ser lido; é uma atividade que se processa continuadamente. Planejar é, freqüentemente, confundido com controlar, isto é, com os meios de forçar as pessoas a agirem de modo pré-determinado. É verdade que todo plano precisa ter os instrumentos de controle que ajudem a levá-lo a efeito. Exemplos usuais de controle em planejamento são os orçamentos, as verbas e subsídios, a educação, o zoneamento e uso do solo. Os projetos devem ser executados de acordo com os controles obteníveis pelo órgão encarregado de levar a efeito o plano.
De outro lado, nem todo ato de controle é planejado. Os esforços deverão se concentrar no sentido de criar uma mentalidade de planejamento na comunidade, e não com o objetivo de encomendar planos e depois ter que “engavetá-los” pela falta de uma organização local que os interprete e que oriente sua implantação. Bauru, tudo tem um limite, chega de gambiarra, acorda! (Luiz Fco. de Paiva Martins - arquiteto, urbanista, consultor técnico em Planejamento Municipal Urbano e Rural)