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Reflexões na hora amarga


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Os leitores que acompanham estas “Reflexões”, sabem que nós, muito antes de ter início o desabusado, monstruoso e covarde massacre do Iraque, afirmávamos que ele iria acontecer, qualquer que fosse a opinião da ONU a respeito do assunto. E acrescentávamos que o início da iniciativa que fez retroceder a ordem internacional aos tempos do império romano, dar-se-ia até o fim de fevereiro ou, o mais tardar, até os primeiros dias de março. E erramos por alguns dias apenas.

De onde nos vinham as convicções que acabamos de enunciar? Quanto à data do início das operações, às opiniões de conhecedores da região, quanto, sobretudo às condições climáticas que nela se verificam. No que diz respeito à inexorabilidade do ataque, ao fato de sabermos que Saddam Hussein liderava o partido Baath, de caráter socialista, e que inscreve em seu ideário - e aí está um seu imperdoável pecado - a aspiração da composição de uma República Árabe Unida, a última coisa a ser desejada pelo Estado de Israel, como o leitor facilmente pode entender. Ademais, eram e são conhecidas as disposições anti-sionistas do sr. Saddam.

Mas, perguntará talvez o leitor, não foi Israel quem atacou o Iraque. Foram, essencialmente, os EUA e o seu hoje, aparentemente satélite, Reino Unido. Ocorre, porém, que existe um “lobby”, um grupo de pressão, nos EUA, de composição predominantemente sionista. E esse grupo de pressão, pelo controle praticamente total da grande mídia americana e internacional, não apenas influencia, como praticamente governa os EUA, como, de resto, ao menos até certo ponto, numerosos outros países. Trata-se, pois, do maior poder da Terra. A propósito, lembramo-nos de entrevista publicada sem destaque, pelo “The New York Times”, concedida no início da década de 70, pelo então influente senador Fullbright, da ala mais liberal do Partido Democrata, na qual ele dizia que o povo americano deveria dar-se conta de que o grupo de pressão a que fizemos referência linhas atrás, tinha, praticamente, o controle político do país. De tal maneira, acrescentou o senador, que qualquer projeto de lei, por mais lesivo que seja aos interesses dos EUA, se for do interesse daquele grupo, será fatalmente aprovado pelas duas Casas do Congresso americano e sancionado pelo presidente da República; ao revés, um projeto de lei por mais benéfico que possa ser para os EUA e para o povo americano, se contrariar os interesses daquele “lobby”, será rejeitado pelo Congresso.

Estas, repare o leitor, as opiniões de um famoso senador democrata, ultra-liberal, americano. E, registre-se: a partir dessas suas declarações públicas, ele não mais se reelegeu, e desapareceu do noticiário, que ocupara com tanto destaque, durante tantos anos...

Há outras razões que fazem a figura de Saddam Hussein muito polêmica, mesmo no mundo árabe: ele é republicano, o que não agrada aos reis, sultões e emires daqueles países. E é sunita, o que não agrada os xiitas, sobretudo os fundamentalistas.

Mas, para encerrar estas “Reflexões”, lembramo-nos do vaticínio que ousamos fazer, de que os derrotados seriam os agressores - o que, no momento, parecerá a muitos equivocado. Entretanto, ousamos reafirmá-lo: é que o formidável poder a que nos estamos referindo depende da ignorância por parte dos povos de que ele existe e do que, realmente, representa. E o anonimato em questão começa, visivelmente a desfazer-se o que, para ele, ídolo de pés de barro, constitui-se em perigo mortal. E o que, aliás, explica a cartada de ou tudo ou nada a que, cada vez mais sem rebuços, se está entregando. Vale a pena refletir, pensamos. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC)

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