Uma equipe de sete médicos de especialidades distintas do Hospital de Base (HB) conseguiu reimplantar a mão de um paciente que sofreu um acidente e teve o membro amputado, no sábado. Através de uma operação de quase 13 horas de duração, a mão foi restabelecida e deve recuperar a sensibilidade em um ano. Até então, médicos de Bauru realizaram a mesma cirurgia para recompor outros membros.
De acordo com o microcirurgião e cirurgião plástico Carlos Augusto Cameschi, o paciente de 25 anos Márcio Matias Ribeiro deu entrada no Pronto-Socorro Central (PSC) no sábado pela manhã sem a mão, que estava enrolada numa toalha dentro de um balde.
“O rapaz era forte, mas estava muito abalado devido à dor e, principalmente, em função do fator emocional. Ele temia ficar sem mão. Contudo, o trauma foi favorável ao reimplante porque a máquina que o decepou não dilacerou os músculos”, conta o médico.
Segundo colegas do rapaz, que trabalham numa serraria com ele, o acidente foi inexplicável. A vítima teria procurado um colega para mostrar um serviço, quando escorregou e caiu. Na queda, passou a mão sobre a serra.
“Sangrou pouco. Ele temia morrer, embora dissesse que não estava sentindo dor. Eu fiquei com aquela cena na cabeça, não consigo esquecer”, confessa um dos colegas, que pediu para ter o nome preservado.
Logo que chegou no PSC, Márcio foi encaminhado ao Hospital de Base (HB), onde se submeteu a vários exames preliminares. Na oportunidade, os médicos avaliaram a pressão arterial do paciente, a quantidade de sangue perdido e ministraram medicamentos para evitar a infecção do local afetado.
Posteriormente, ele foi anestesiado e preparado para a cirurgia. Ainda de acordo com Cameschi, para que o reimplante fosse realizado, a mão e o membro decepado passaram por uma minuciosa limpeza, onde medicamentos à base de iodo foram utilizados.
“Os procedimentos precisavam ser rápidos. Devido à liberação de toxinas, uma cirurgia desse porte deve começar em no máximo seis horas. Dependendo do membro, a cirurgia deve ser iniciada em até três horas”, conta o microcirurgião.
Cameschi trabalhou em conjunto com o anestesista Antonio Barbosa Neto, com o cirurgião vascular Lívio Nakano, com os ortopedistas e microcirurgiões Ricardo Cabello e Emerson Campos e com os ortopedistas Roger Tedd Manzano e Antonio Carlos Good Mendes. Os dois últimos, fizeram a fixação óssea da fratura.
Posteriormente, os médicos fizeram um enxerto de vasos em função do efeito elástico deles, que reduzem de tamanho quando rompidos. Para tanto, utilizaram veias do próprio braço do paciente para religá-los. Ainda refizeram uma artéria por três vezes devido às toxinas, que impediam o fluxo de sangue, e religaram os tendões. A fim de facilitar a vascularização, aqueceram a sala e administraram medicamentos.
“Quando chegamos nessa etapa, paramos por cerca de 45 minutos para aguardar os efeitos e para descansar. Acreditávamos na possibilidade de uma trombose. Iríamos usar um cateter para tirar o coágulo, mas quando voltamos, percebemos a circulação”, relembra.
Mesmo assim, segundo ele, os especialistas se reuniram para discutir o quadro do paciente e decidiram refazer mais uma via por medida de segurança. Ela foi retirada com sucesso do outro braço. “Na próxima quinta-feira faremos uma nova cirurgia para religar os nervos, que garantem a sensibilidade da mão”, diz.
O paciente continua internado. A reportagem não localizou a família de Ribeiro para dar mais informações.
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Êxito
O trabalho realizado pela equipe de médicos no sábado passado foi considerado um sucesso pelo microcirurgião e cirurgião plástico Carlos Augusto Cameschi. De acordo com ele, o paciente estava sujeito a infecção e trombose. Porém, como reagiu bem nas 24 horas posteriores à cirurgia, as chances de recuperação são grandes.
“Ele tem 99% de chance de recuperação. A circulação está excelente, mas o membro ainda está muito inchado. Temos que esperar o tempo de consolidação da fratura, de cerca de 60 dias, para iniciar a fisioterapia. Em um ano, ele deve ter recuperado a sensibilidade, que depende da progressão do nervo. Ele cresce um milímetro por dia, quando começa a progredir”, explica.
Devido ao êxito, segundo o cirurgião, a possibilidade de formação de uma equipe no Hospital de Base (HB) para trabalhar nessa área não está descartada. Atualmente, Bauru não dispõe de um centro, um departamento ou um grupo que trabalhe especificamente com microcirurgias para reimplante.
De acordo com ele, no Estado de São Paulo, o único centro conhecido é o Universidade de São Paulo (USP). Já o Hospital do Servidor, no Rio de Janeiro, dispõe de uma clínica específica para esse tipo de cirurgia.