Representantes de entidades do comércio e lojistas de Bauru estão revelando uma realidade contrária aos dados da pesquisa divulgada anteontem pela Serasa, que mostrou recorde de cheques devolvidos por falta de fundos em março. Todos os entrevistados afirmam à reportagem que os índices encontram-se estáveis e “dentro da média”.
De acordo com a pesquisa, o volume de cheques devolvidos por esse motivo em relação ao total de compensados em março foi de 16,7 unidades por 1.000, o que representa uma alta de 3,1% na comparação com o mesmo período do ano passado. Em março de 2002 foram devolvidos 16,2 cheques a cada 1.000 compensados.
Segundo a Serasa, empresa de análise de crédito, o resultado de março deste ano foi o maior desde 1991, quando o levantamento começou a ser efetuado. O comerciante e diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Sérgio Evandro Motta afirma que, tanto na sua loja quanto no comércio em geral, a situação é de estabilidade.
Contudo, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de Bauru, órgão ligado à CDL, ainda não encaminhou os dados referentes ao mês de março. “Mesmo sem os números oficiais, posso afirmar que não houve nada de anormal nem no mês de março e nem do início do ano até agora. Inclusive, me surpreendi com a pesquisa da Serasa”, diz Motta.
Segundo ele, há cerca de quatro anos a quantidade de lojas do comércio bauruense que consultam o SPC antes de fechar uma compra com cheque tem aumentado significativamente. “Essas consultas, além de outros cuidados que cada lojista toma, contribuem muito para reduzir os índices de inadimplência”, observa o diretor da CDL.
De acordo com ele, o volume de cheques devolvidos por falta de fundos no primeiro trimestre deste ano está no mesmo patamar dos índices de igual período do ano passado.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Carvalho, diz que o grande “vilão” nessa situação seriam os bancos. Na opinião dele, a maioria das instituições financeiras não utiliza critérios rígidos para a abertura de novas contas.
“A Serasa está culpando a ampliação nos prazos de pagamento oferecidos pelas lojas no final do ano passado, em função do Natal. É claro que isso sempre pode gerar alguns reflexos de inadimplência, mas não é a principal causa. O grande problema está na falta de exigências mais severas da maioria dos bancos na hora de abrir contas aos clientes”, opina Carvalho.
Segundo ele, em sua loja o volume de cheques devolvidos por falta de fundos está até abaixo que o do primeiro trimestre de 2002. Como lojista, Carvalho toma alguns cuidados em seu estabelecimento para as compras parceladas, como um cadastro detalhado do consumidor que inclui seu salário, tempo em que mora na residência atual, consulta ao SPC, entre outros.
Exigências
De todos os bancos aos quais a reportagem solicitou o envio de informações sobre as exigências feitas para aceitar a abertura de contas, somente o Banco do Brasil retornou até o fechamento desta edição.
Nesta instituição são exigidos os seguintes documentos: CPF, certidão de casamento, CPF ou RG e comprovante de renda do cônjuge, comprovante de residência, comprovante de renda e de propriedade de imóveis, Certificado de Registro e Licenciamento de Veículos do último ano e o Documento Único de Transferência (DUT).
O proprietário de uma loja de confecções, Marcos Rigoni, diz que o volume de compras feitas com cheque pré-datado em seu estabelecimento representa cerca de 20% a 25% do total mensal. Para diminuir riscos, ele não aceita pagamento com cartão.
“Eu tenho pouquíssimos problemas com cheques sem fundos. Procuro sempre aceitar cheque de quem o utiliza como facilitador, e não como fonte de crédito. Também evito compras pré-datadas de pessoas que têm conta corrente aberta há pouco tempo. Prefiro os pagamentos feitos através do nosso crediário”, relata Rigoni.
De acordo com ele, do total de cheques pré-datados emitidos na loja mensalmente, apenas cerca de 2% são devolvidos por falta de fundos. “Os índices que tenho na loja hoje vêm se mantendo há mais de um ano”, afirma o comerciante.
A lojista Jane Barreto Barbosa também afirma ter “estranhado” a pesquisa divulgada pela Serasa. “Na minha loja, pelo menos, a situação é bem diferente. Não registrei volume maior de cheques devolvidos desde o início do ano. Tudo está dentro da média normal para o período”, ressalta.
Segundo ela, os poucos cheques que “voltaram” em março foram todos pagos pelos clientes, posteriormente. “Tenho uma freguesia muito boa”, acrescenta Jane.