Um padeiro aposentado de 80 anos, cujo nome está sendo preservado para evitar constrangimento, quase perdeu R$ 9,7 mil para um golpista que se passava por pai-de-santo em Bauru. O golpe só não deu certo porque o funcionário do banco onde o idoso tem conta desconfiou do fato dele pedir para sacar uma quantia alta e acionou a Polícia Militar, segundo o tenente Jovercy Bergamaschi Júnior, comandante da Base Centro.
Um policial do Serviço de Inteligência da PM, à paisana, foi ao banco e passou a seguir o idoso até ele entrar em uma pensão localizada na quadra 3 da avenida Rodrigues Alves. O idoso, ao ser questionado pelo policial sobre o que fazia no local, disse que esperava dois homens que eram curandeiros, estavam fazendo trabalho para cura de sua mulher e que iriam benzer seu dinheiro para duplicá-lo.
Os policiais da Base Centro foram para a pensão e pediram autorização à dona do estabelecimento para revistar o quarto alugado pelos rapazes. No quarto, havia várias velas coloridas, um altar com imagens de santos católicos e objetos do camdomblé, ovo quebrado com tinta vermelha, além de pacotes de papéis cortados em tamanho semelhante ao de notas de real.
Também estavam no cômodo várias folhas de cadernos com nomes de outras cinco pessoas, que podem ter caído no golpe. O idoso, que já havia estado no quarto duas vezes e entregue R$ 280,00 aos dois rapazes em troca da cura de sua mulher, que está doente, só percebeu que iria cair em um golpe após o alerta dos policiais.
Para o tenente Bergamaschi Júnior, os golpistas iriam trocar os R$ 9,7 mil do aposentado pelos maços de papéis cortados. “Possivelmente, eles iriam trocar os maços e a vítima só perceberia o golpe mais tarde”, diz. O aposentado, que é espírita, explicou que quase caiu no golpe porque ficou impressionado com o fato dos rapazes saberem muito sobre sua vida e de sua esposa e por ter presenciado fenômenos estranhos no quarto.
“Cheguei até aqui porque um rapaz, que disse ser filho de um conhecido, me chamou pelo nome na rua. Disse que sabia que minha mulher estava doente e contou que aqui estavam dois rapazes que podiam me ajudar”, lembra. Na porta da pensão, o idoso encontrou um senhor que disse que a mãe dele, que estava muito doente, havia sarado com as orações dos rapazes. “Então eu acreditei”, diz.
O aposentado conta que em uma das vezes que esteve na pensão, sob orientação dos golpistas, quebrou um ovo em um prato e assustou-se com o que viu. “O ovo tinha sangue. Por isso eles disseram que eu tinha que continuar, acabar de fazer uma limpeza para minha mulher ficar curada”, relembra.
Na verdade, o ovo vermelho era uma estratégia usada pelos golpistas para impressionar a vítima. Ao lado do ovo achado ontem havia uma seringa com tinta vermelha - possivelmente usada para injetar a tinta no ovo através de um pequeno orifício. “Agora vejo que ia cair em um golpe”, reconheceu o idoso.
Mercedes Talarico, dona da pensão, afirma que não desconfiou dos três rapazes que alugaram o quarto. “Esta é a segunda vez que eles alugam o quarto. Disseram que eram da Bahia e vieram a Bauru vender remédios preparados, garrafadas. Como não entro no quarto alugado, não desconfiei de nada. Não sabia o que acontecia lá dentro. Achava que realmente vendiam garrafadas”, afirma.
Os policiais ficaram de plantão no local por várias horas ontem, mas os três rapazes não apareceram. Como Mercedes não tinha nenhum cadastro dos hóspedes e eles não deram nem o nome completo, a polícia não tem pistas dos golpistas.
O delegado Ismael Cavalieri, do 3.º Distrito Policial, que registrou o caso, não descarta a possibilidade de alguma pessoa ter caído no golpe. “É um golpe novo, nunca tínhamos ouvido falar dessa estratégia”, frisa. Ele diz que apenas com as características físicas dos golpistas é difícil identificá-los.
A orientação do delegado, reforçada pelo tenente Bergamaschi, é para que as pessoas desconfiem de toda e qualquer proposta de dinheiro fácil. “Proposta de dinheiro fácil sempre é golpe”, frisa Cavalieri.