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Cerimônia do adeus


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A gente não tem tantos heróis. Com a morte de Mauro Rasi Bauru fica mais pobre do que já era. Concordo que gozava os bauruenses e nem perdoava a própria família. Em compensação, também se julgava um caipira do Interior de São Paulo. Bem ou mal falava desta cidade e dos seus habitantes. Quando Sérgio Mamberti o chamou de um novo Tchekhov, estava certo. Os dramas do escritor russo também foram ambientados na província, seus dramas envolvem personagens da pequena burguesia e da aristocracia decadente. Os diálogos tradicionais são substituídos por monólogos paralelos, onde cada personagem deixa entrever suas mágoas ou sentimentos mais profundos, principalmente a frustração e a impotência diante da vida.

Na peça de estréia de Rasi aos 13 anos, “Duelo do caos morto”, adolescentes contam suas vidas e termina com um deles, homossexual, subindo ao piano para dar um tiro na cabeça. Mamberti e Antonio Abujamra assistiram à encenação e vaticinaram o sucesso do dramaturgo.

Gostava de chocar como Rimbaud, o poeta maldito ao qual também foi comparado. Nem sempre os críticos aceitaram as provocações. Levou muita porrada. Em um festival de teatro em Campinas o garoto levou sua peça provocativa. Só faltaram interná-lo no SAM, que era a Febem da época. Dona Pérola queria processar os críticos. Ele sempre riu do episódio.

Sua protetora aparece em várias de suas obras. Com a morte da mãe, Rasi começou a escrever logo depois do enterro a sua obra-prima “Pérola” ficou cinco anos em cartaz e foi vista por 300 mil espectadores. O resgate da infância e adolescência em Bauru e a história da piscina que seu pai construiu no quintal de casa permitiu-o viver num apartamento de cobertura no Leblon de 1.250 m2. Nos anos 50 ninguém tinha piscina em casa e a burguesia bauruense sonhava com esse símbolo de status. Hoje, prefere o dinheiro dos cofres públicos.

Fui amigo de Oswaldo Rasi, seu pai, que tinha uma casa de ferragens perto do jornal onde eu trabalhava. Quando fui à Europa (também era status naquela época), pediu-me para levar um maço de dólares para o Maurinho. Acabara de receber uma carta de SOS. O cenário pintado era teatral. O filho dizia-se ameaçado de morte com a pneumonia dupla que o acometera em pleno inverno parisiense. A mesada rotineira fora insuficiente para as despesas extras com antibióticos, caríssimos por lá. Comia mal no restaurante dos estudantes. Despedia-se na carta como alguém que nunca mais voltaria a ver os pais.

Nem bem desembarquei fui correndo ao endereço, uma mansarda no Quartier Latin. Encontrei o jovem de 18 anos vendendo saúde. Queria só viver mais intensamente a noite parisiense. Nem sabia onde ficava o Conservatório de Paris. Os boletins com as notas eram falsificados. “Sou mesmo um blefe”. Disse e repetiu ao longo da sua vida.

Depois de andar por Londres, Nova York e Bahia foi parar em São Paulo. Quase morreu de tédio naqueles anos de chumbo da ditadura. Frio e garoa. Ruth Escobar chegou a derrubar o seu teatro para reconstruí-lo de acordo com as exigências cenográficas de Mauro. Nem assim arribou. Vendeu o piano para comprar drogas. “Cheirei o piano inteiro”, confessou em uma entrevista.

O Rio de Janeiro o salvou. Ganhou quatro Molière. Criou as tias, suas ex-professoras. Escrevia para O Globo, teve um quadro no Fantástico. Levava uma vida feliz com seus quatro gatos e um cachorro. Um dos bichanos, caçador de pombas, caiu da janela do edifício. Mauro gastou uma fortuna para salvar sua vida. E conseguiu. Mesmo aleijado, o gato estava lá.

Depois de transformar a mãe em uma espécie de Esther Williams à beira da piscina, foi a vez do pai ser homenageado. “O crime do dr. Alvarenga”, de autoria de Oswaldo Rasi, foi ao palco com Paulo Autran no papel principal. O velho morreu feliz. Segundo o filho, “encantou”, como o personagem de Guimarães Rosa.

No enterro do pai, numa tarde chuvosa, Mauro disse que não voltaria mais a Bauru. Rompeu definitivamente seus laços edipianos. E não voltou nem morto. Infelizmente não deu tempo para produzir seu musical “Ladies da madrugada”. Dessa vez ele seria o astro. Finalmente sob os holofotes. Brilhos e paetês. Alguns passos de dança entre belas coristas. Rodopios à la Fred Astaire e um colar de diamantes da Tiffany`s no pescoço da Cláudia Raia. Presente de Mauro Rasi. Não deu tempo. Sua Broadway parou por aqui. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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