Uma expressão pejorativa começa a se tornar uma realidade séria - a educação como comércio. A idéia de comércio em educação está se afastando das escolas de má qualidade para inserir as boas escolas numa concorrência globalizada. O que aconteceu com a indústria, que precisou dar um grande salto de qualidade para sobreviver na disputa cada vez mais globalizante, está ocorrendo agora com os serviços e, entre eles, a educação.
Organizações como a americana Apollo, dona da Universidade de Phoenix, que possui um braço no Brasil com a Universidade Pitágoras, de Minas Gerais, estão ansiosas para disputar um mercado de cerca de R$ 12 bilhões. Tudo depende da abertura que o Brasil venha oferecer aos estrangeiros. Esse assunto vai ser discutido na próxima reunião do Conselho de Serviços da Organização Mundial do Comércio (OMC), marcada para o período de 12 a 22 de maio.
A disputa interna já é grande. As instituições privadas detêm 65% do ensino superior e vêm travando uma batalha acirrada mas, infelizmente, com ensino, no geral, de baixa qualidade. As armas usadas são um marketing agressivo, focalizando as instalações físicas, e guerra de preço. Ainda está valendo a expressão pejorativa de comércio da educação. A ameaça externa, contudo, começa a causar preocupação e as vistas estão sendo voltadas para o MEC, a quem cabe a regulamentação.
Autoridades em educação envolvidas no debate estão propondo que é preciso arrumar a casa porque a qualidade do ensino poderá ter padrão internacional de comparação. Nessa discussão, começa a ganhar força a idéia de um selo de qualidade que atestaria a validade de bons cursos na esfera mundial, pouco importando a sua origem. Funcionaria como um comprovante capaz de abrir portas nos diversos mercados. Reunião nesse sentido já foi feita no Canadá, no início deste ano.
No governo passado o MEC criou um sistema de avaliação das instituições de ensino superior, composto pelo Exame Nacional de Cursos, conhecido por Provão, e pela verificação das condições de ensino, por comissões de especialistas, que observam e fazem relatório sobre as instalações, biblioteca, laboratórios e corpo docente. O atual governo está mantendo o sistema porque também o julga necessário. O objetivo é a melhoria do ensino mas ainda há grande dificuldade para usar os resultados. Escolas com péssimos resultados, em grande quantidade, continuam oferecendo seus cursos e até propondo novos, indiferentes às ameaças de fechamento.
É possível que as coisas venham a se modificar com a abertura à participação estrangeira. Com certeza o governo vai sofrer grande pressão para impedir a invasão estrangeira, mas a força invasora é muito grande e sempre contará com os nacionais interessados nela. Vai ser uma luta de gente grande, mas sempre haverá nichos para os pequenos que primem pela qualidade. (O autor, Pedro Grava Zanoitelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru)