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Universidade em ritmo de barbárie


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Em antigo ensaio da década de 80, José Arthur Gianotti advertiu que a universidade pública brasileira entrava em ritmo de barbárie. Alertava para a queda na qualidade de ensino, para a desvalorização do corpo docente, para a imagem negativa da instituição na sociedade, questões que já começavam a preocupar.

A universidade tem entre suas funções principais preparar profissionais, desenvolver a pesquisa, estimular as lideranças para o País. São tarefas que vem cumprindo, embora cada vez escasseiem mais as condições de fazê-lo. A cada novo governo, crescem as ameaças e diminuem as esperanças.

Quando assumiu o poder a elite vinda das universidades paulistas, todos pensamos que chegara a hora da redenção do ensino universitário público, mas, frustrados, vimos que as aposentadorias esvaziaram as cátedras, os salários foram congelados e criou-se esse equívoco, o professor substituto, a solução que é um problema: a interinidade alia-se ao despreparo e à inexperiência para aligeirar o ensino e apressar o ritmo da barbárie.

Por outro lado, quando dizem ter chegado a vez da esperança, provoca-se uma nova debandada, porque a atual equipe também não percebeu que se deve tratar a instituição de forma diferenciada. A aposentadoria dos docentes traz prejuízo, porque ao longo da carreira eles acumulam saber bancado pela própria instituição, necessário às novas gerações. Muitos resistem e, apesar das condições adversas, só saem com a compulsória. Aprofundando a crise, foi criado um falso problema para a sociedade brasileira, inventando a questão das cotas. Se existem excluídos da universidade pública, não é por conta de preconceitos de cor ou classe social, e sim por conta da falta de preparo dos egressos das escolas públicas, que não ensinam os conteúdos necessários e que melhoraram seu desempenho apenas na maquiagem dos números. A falha do sistema não é na entrada da universidade, é na saída do ensino médio, sem a qualidade exigida. Ao recebermos os alunos aprovados no vestibular, já observamos as lacunas no conhecimento trazido do grau médio. Com as cotas, o ensino vai baixar a níveis nunca vistos. Como confiar em um médico que entrou despreparado? Além disso, é uma injustiça com os preteridos mais capacitados.

A universidade pública não é instituição filantrópica. Além disso, precisa evoluir e atualizar-se. Mas, sem apoio, torna-se impossível. Três temas presidem as preocupações dos dirigentes universitários pelo mundo afora: formas de acesso, controle de qualidade e captação de recursos. Entre nós, parece se resumir à economia de recursos, minguando os repasses a ponto de serem cortados telefone e luz, enquanto o Congresso aumenta as verbas para os parlamentares. Acelera-se o ritmo de barbárie, apressando-se o desmonte.

Para que serve a universidade: é destinada ao bem coletivo ou apenas um adereço inútil? A resposta é crucial para planejar de imediato estratégias e estruturas, antes que seja tarde. (A autora, Nelly Carvalho, é professora do Departamento de Letras da UFPE)

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