A liberdade foi dada ao Iraque. O povo iraquiano, que sofrera por décadas as privações e vicissitudes do governo ditatorial de Saddam Hussein, agora prova de uma liberdade político-religiosa que há muito não sentiam. Entre todos os cidadãos, os mais afoitos e esperançosos com esse novo status da política doméstica iraquiana são os xiitas, que somam mais de 60% da população do Iraque.
A intervenção militar da coalizão anglo-americana foi um sucesso. A tecnologia aplicada nesta guerra resultou em um número de baixas civis menor do que o esperado, assim como as baixas militares da coalizão. Em poucas semanas, a comunidade internacional viu a queda de um governante que há muito já deveria ter sido deposto; o mundo e a economia respiraram aliviados com o fim da guerra, sem grandes prejuízos humanos, econômicos e militares. Ao que parece.
Agora, a questão da política doméstica do Iraque se configura no maior problema a ser enfrentado, tanto pelos cidadãos iraquianos, como por George Bush e Tony Blair; os ponteiros devem ser acertados: a sincronia precisa prevalecer, o respeito religioso deve ser mantido a todo custo, a economia deve ser reestruturada e a população respeitada. Durante toda a permanência de Saddam no poder, a tirania foi a marca de seu regime, uma minoria absoluta governou com garras afiadas e frias todas as ações estatais, civis e militares daquele país. A tirania é o governo da minoria para a minoria, à revelia dos anseios da maioria, e não resta dúvida de que esta terminologia cabe ao governo de Saddam.
Instaurar uma democracia no Iraque, nos moldes do ocidente, pode se mostrar uma tarefa mais árdua do que a própria conquista militar. Os xiitas, acostumados com anos de censura religiosa, já demonstraram ao mundo todo que agora estão livres para praticar seus costumes e cultos; grandes “chefes” xiitas já deixaram transparecer o anseio de participar de maneira efetiva do governo que deve ser instaurado no país, pós-governo provisório da coalizão.
Democrático, o Iraque pode se tornar. Mas isso não significa necessariamente o respeito pela religião e costumes das minorias. Se o governo for deixado de maneira abrupta e sem controle nas mãos dos iraquianos, poderá se configurar naquele país uma democracia oca. Diferentemente do Brasil, cujo caldeirão cultural aparentemente vive em paz e respeito mútuos, as questões religiosas e étnicas no Iraque são muito mais enraizadas e espinhosas do que podemos supor num primeiro foco.
Já disseram que a democracia é a tirania da maioria. Em países onde as questões eleitorais envolvem primordialmente as áreas econômica, social e política, a engrenagem da democracia trabalha devidamente lubrificada, em sincronia; a minoria que não optou por eleger o governante pode se ressentir, mas aceita de bom grado o que foi imposto pela maioria, e torce para que esta tenha acertado na escolha.
Num país onde a questão religiosa vem à frente de quaisquer outras questões, a tirania da maioria pode significar uma forma de calar as vozes e vontades das minorias étnicas e religiosas. A recente história totalitária do Iraque pode ter marcado com rancor aquelas populações que foram marginalizadas e segregadas por anos a fio; o ódio e desprezo religioso e étnico, se não controlados, podem levar a mais censura, medo e atos irracionais, com um pano de fundo democrático. O relógio iraquiano deve ser mantido a todo custo, com todas as engrenagens presentes e atuantes; caso contrário, um colapso pode ser inevitável. (O autor, Edson Augusto de Carvalho Balestri, é aluno do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)