O neurologista Mario Peres, diretor do Centro de Cefaléia de São Paulo e membro do subcomitê da International Headache Society, está iniciando uma pesquisa inédita sobre a cefaléia dos brasileiros. Ele selecionou um grupo de pacientes com cefaléia crônica que serão tratados e monitorados durante três meses. A pesquisa vai mapear faixa etária, condição sócio-econômica e aplicação de novos tratamentos.
“Não existe exame específico para diagnosticar a cefaléia, mas há sinais físicos que indicam o aumento e a freqüência da dor de cabeça. Tratá-la desde o início é essencial para a qualidade de vida do paciente”, afirma Peres. O médico foi um dos palestrantes do Simpósio Internacional “Novos Tratamentos da Cefaléia”, realizado em São Paulo no último final de semana.
Os avanços e estudos referentes ao tratamento das dores de cabeça foram o tema central do evento. De acordo com a organização, mais de 6 milhões de brasileiros sofrem de enxaqueca ou outro tipo de dor de cabeça e muitos nem sabem que precisam de tratamento especializado.
“Cerca de 40% da população mundial sofre de dor de cabeça, sendo 5% com dores de moderada a severa. Isso é sério”, adverte Joseph Silberstein, considerado um dos maiores especialistas do mundo no assunto.
Ele e outros 120 especialistas que participaram do evento alertaram que, na maioria dos casos, a cefaléia não é diagnosticada a tempo ou só é levada em consideração como recorrente de outros tratamentos. “No Brasil, 84% das pessoas que têm dor de cabeça não procuram ajuda médica”, indica o neurologista Jayme Maciel.
Em outra pesquisa, Mario Peres demonstrou que 70% dos portadores de enxaqueca crônica sofrem de ansiedade, 80% apresentam depressão, 58% têm náuseas, 66% têm fadiga crônica e 84% se queixam de fadiga. O simpósio mostrou que esses sintomas são ainda mais graves nos idosos, que têm outros fatores desencadeantes de enxaqueca (doenças crônicas, por exemplo).
O neurologista Luiz Paulo Queiroz pesquisou a cefaléia em obesos e constatou que 93% deles (entre 20 e 44 anos) sofrem algum tipo de cefaléia, sendo que 75% destes têm cefaléia crônica diária. “Contabilizando que a obesidade no Brasil aumentou 240% nos últimos 20 anos, temos a cefaléia como uma doença recorrente e um problema de saúde pública”, enfatiza.
Especialistas também relataram estudos realizados com novos medicamentos e mostraram que o que teve melhor aceitação e menos efeitos colaterais foi a substância topiramato, que é usada no tratamento de epilepsia. “Além de controlar a celaféia, o topiramato restaura o bom humor, não causa naúseas e ajuda na redução de peso”, comenta Silberstein.
O mesmo especialista também comentou a alta incidência da doença em mulheres (70% dos casos), que foi atribuída ao uso contínuo de contraceptivos, à mistura de medicamentos, à falta de exercícios físicos e ao abuso de analgésicos. Segundo ele, são fatores que potencializam as crises, especialmente no período pré-menstrual e durante a menopausa.