No dia 9 de maio, a União Européia (UE) celebra sua “Declaração de Independência”. Em 1950, o documento de fundação do bloco fez uma oferta única: compartilhar as indústrias do carvão e aço entre as nações democráticas da Europa. O objetivo não era ampliar o livre comércio, mas “fazer da guerra algo impensável e materialmente impossível”. Robert Schuman, católico devoto, ministro de Assuntos Exteriores da França, lendo as palavras e o espírito das idéias de seu assessor econômico, o liberal-centrista Jean Monnet, anunciou desta simples, mas revolucionária, maneira o nascimento da experiência de maior êxito e pacífica na história da cooperação entre os Estados e da integração regional: a União Européia.
O fato de este projeto ter sido plasmado no coração da Europa, destroçada por séculos de guerras internas, e ter sido aceito pela Alemanha, inimiga ancestral da França, transformava a experiência em insólita notícia. Goste-se ou não, a UE é uma proposta francesa que não se pode rejeitar e uma aceitação alemã por necessidade. Oito líderes e estadistas franceses contribuíram à sua maneira para a integração européia.
O primeiro foi Aristide Briand, um dos fundadores do Partido Socialista francês que foi primeiro-ministro várias vezes. Nos tempestuosos anos 20, ao testemunhar o fracasso do mundo imaginado em Versalhes, Briand lutou pela reconciliação, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1926, foi co-autor de um tratado que proscrevia a guerra, ratificado por 60 países em 1928, e trabalhou com a Sociedade de Nações para conseguir o desarmamento. Finalmente, redigiu um memorando para a criação de uma União Européia.
O desafio mais importante da Europa atual é a necessária reforma institucional que inclua a incorporação de uma dúzia de novos membros da UE, muitos deles anteriormente sob a hegemonia soviética.
Em lugar de continuar com a série de tratados regulando a UE, a Europa necessita de uma verdadeira Constituição. Formou-se uma Convenção e sua presidência foi encomendada, não por casualidade, a Valéry Giscard d”Estaing. Como presidente francês conservador nos anos 70 e antigo ministro de De Gaulle, Giscard transformou as cúpulas informais de chefes de Estado e de governo no auge das instituições da UE, o Conselho Europeu. Agora, tem como desafio fundamental apresentar o rascunho de um novo tratado constitucional europeu.
Será necessário um esforço supremo da parte do oitavo estadista francês envolvido, o atual presidente neogaullista Jacques Chirac, para se encaixar no espaço reservado nesta vitrine da fama. Livre de ter que se apresentar para novas eleições, Chirac tem uma oportunidade de ouro para indicar o rumo correto, ancorar novamente a França no centro da integração européia, servir de ponte entre a “nova” Europa e os legítimos interesses nacionais, e ser fiel à herança de Monnet e Schumahn. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami)