Diretamente de um porta-aviões o presidente George W. Bush falou ao vivo para o mundo anunciando o término das operações militares com a “libertação do Iraque”, fato que teria se constituído em um “avanço crucial na guerra contra o terror”. Pelo que eu tenho visto na televisão não me parece que o povo iraquiano se sinta “libertado”. Civis continuam sendo metralhados nas manifestações contra a presença estrangeira. Embora o exército dos EUA tenha acesso a todo território conquistado, até agora o suposto arsenal de armas químicas e biológicas de destruição em massa ainda não apareceu. Muito menos Saddam Hussein. Como disse Baudrillard, a estátua derrubada era de um dos seus sósias. Bush ainda se referiu à precisão cirúrgica dos bombardeios. Graças aos avanços tecnológicos da máquina de guerra a luta contra o terror pode-se fazer onde quer que se encontre, sem perda de vidas inocentes.
Mas como? Morreram 2.400 civis em Bagdá e a cidade está toda destruída... E o Bush ainda quer mais briga.
A partir do século 20 o homem começou a fazer guerra mais por questões econômicas do que por cobiça territorial. Mais do que a conquista do objeto do desejo – no caso um território -, matar e destruir viraram um bom negócio. A futura reconstrução do Iraque, por exemplo, demandará a contratação de empresas que recuperem estradas, redes de infra-estrutura, aeroportos, refinarias e poços de petróleo.
Onde fica a dor do outro? A invasão do Iraque demarca uma nova ideologia de guerra. No século 20 o stalinismo era movido pela extinção das sociedades de classe e o nazismo, que culminou na Segunda Guerra Mundial, pela crença na superioridade de uma raça. A ação militar dos Estados Unidos é motivada pela expansão do mercado. Este tipo de ideologia – aqui, referindo-se a um sistema de interesses que superam inclusive o valor à vida -, caracteriza-se principalmente pela desconsideração à existência e ao sentimento alheios.
O antídoto ao sentimento é típico do gênero masculino, afirmam os antropólogos. Portanto, as guerras – das tribais às modernas – são produzidas por homens. A questão não é biológica, mas cultural. Em todas as culturas, o homem – e não a mulher – é treinado desde cedo para não ter sentimentos nem dor. Como exemplos, o tratamento duríssimo que recebe no Exército e, no caso de tribos indígenas, as provas dolorosas por que os guerreiros passam quando atingem a idade adulta, incluindo a mutilação de partes do corpo. Quando o homem perde a sensibilidade à própria dor, onde fica a dor do outro?
A hipervalorização do modelo do “homem guerreiro” e a desconsideração ao sofrimento foram observados na II Guerra, no Vietnã e, agora, no Iraque. Manipulada pela mídia a sociedade glorifica seus soldados, penaliza-se com as agruras dos militares, que chamam de our boys (nossos meninos), mas se esquece que, do outro lado, também há pais perdendo os meninos deles.
Nascido em 484 a.C., o historiador grego Heródoto acompanhou e relatou vários conflitos na Antigüidade, incluindo a famosa Guerra do Peloponeso. Conhecedor de armas, estratégias e generais, certa vez ele disse:
—Nenhum homem pode ser tão estúpido a ponto de desejar a guerra e não a paz, pois em tempo de paz, os filhos enterram seus pais, e na guerra, os pais enterram os filhos.
Os militares julgam sempre ter cumprido o dever para com a Pátria. Acham que não devem e nem podem responder pelos horrores que produzem. Isso lembra o general alemão Otto Abetz, que governou Paris na ocupação nazista, e o pintor Pablo Picasso durante uma exposição da tela Guernica:
— Foi o senhor que fez esse horror?, perguntou Abetz.
— Não, senhor general. Esse horror foi feito pelos senhores, respondeu o pintor.
Heródoto e Picasso não compreendiam a guerra. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)