A professora de sociologia da comunicação e sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Loriza Lacerda Almeida, está convencida de que os “expurgos” que ocorrem nos diversos níveis do Legislativo e Executivo, através de processos de cassação, têm como resultados o fortalecimento da política.
Para ela, a corrupção no Poder Público é advento da modernidade política, mas não é exclusividade do Brasil. A professora também avalia que especificamente em Bauru não se pode dizer que as cassações de mandatos parlamentares ocorrem por pressões populares. “O que existe é um processo autofágico interno aos próprios políticos, com interesses aí que eu não ousaria especular quais são.” A seguir, a entrevista com a professora.
Jornal da Cidade - Por que no Brasil se fala mais em corrupção? O País, nesse quesito, supera os demais? Loriza Lacerda Almeida - Podemos pensar a corrupção como um advento da modernidade da política. Para dar um recorte, vamos pensar o Brasil na década de 90. Particularmente no Collor, a mídia teve um papel importante porque deu visibilidade. Para se fazer um recorte histórico da contemporaneidade, a mídia faz uma cobertura sobre o modo de governar do Collor. E o modo de governar era diferenciado em comparação aos modelos anteriores. Temos a candidatura civil, temos a discussão da Constituinte de 1988, que também traz uma participação da população, que faz um acompanhamento da política de maneira mais próxima, coisa que antes não acontecia em função da ditadura. Temos nos anos 60, 70 e até meados dos anos 80 uma política que acontece orquestrada pelo regime militar. A população fica completamente avessa, sem participação possível. A visibilidade do governo Collor permitiu que se percebesse como é que o poder é permeado de outras coisas que não apenas o exercício pleno do poder e da representação que o povo confere. Não quero dizer que política pressupõe corrupção. O espaço da política é um espaço para construir projetos, mas também é um espaço que permite a aproximação muito grande com dinheiro público. E a noção do público no País é uma noção muito ruim. É a noção de que aquilo que é público não é de ninguém. No Brasil temos um histórico de política personalista - as pessoas fazem política para si e para os seus. Mas esse advento não é apenas brasileiro.
JC - A redemocratização do País permite que, ao mesmo tempo que o eleitorado elege seus representantes, também tem a mesma força para retirá-los do poder? Loriza - Acho que não. O advento do Collor é muito pontual. Há estudos que discutem aquele momento como fortemente manipulado pela mídia. Então se criou um momento, um contexto. Obviamente que o Collor ajudou muito no processo. Ele era um político atípico, com um grau de desvio muito grande. Ele chamou muito a revolta popular. Naquele momento se constituiu uma conjuntura em que era muito estranho em não participar, nao ir para as ruas. Mas isso é atípico no processo. Em grande medida os exemplos estão aí dos políticos, em variados níveis, em que as coisas acontecem e nem por isso o povo se mobiliza.
JC - Bauru vive momentos políticos conturbados nos últimos anos. A Câmara cassou dois vereadores e um prefeito e agora avalia mais três processos. A população da cidade está mais atenta às atividades de seus representantes? Loriza - Muita gente diz - e eu pactuo dessa idéia - que Bauru tem uma trajetória de política conservadora. Moro aqui desde 1985. A história de Bauru mostra que de fato há uma trajetória muito conservadora. Conservadora em duas direções: uma no sentido de que não se teve nenhum partido mais avançado na administração municipal. Se quer se chegou perto disso. As candidaturas ocorreram, mas nunca se chegou perto do poder municipal mais avançado. E também não há uma participação efetiva da comunidade na política local. Então os segmentos organizados da sociedade bauruense, quem são? Se a gente procurar bem, houve um período em que havia uma organização grande das associações de moradores. Mas essa organização se dá numa relação extremamente paternalista, de dependência, inclusive, dos interesses de melhora de infra-estrutura, etc. Essa população participava no quesito reivindicação e não no quesito de participação política estrito sensu. E hoje, temos um desmantelamento das organizações de bairro. Das outras organizações, como os conselhos, que são importantes e são frutos do processo de reivindicação política da comunidade local, também há dificuldades de intervenção na sociedade. Não vejo uma participação da comunidade bauruense de maneira efetiva, de acompanhamento, em que pese a cobertura da mídia. O que existe é um processo autofágico interno aos próprios políticos, com interesses aí que eu não ousaria especular quais são. Não me parece que a comunidade esteja depondo vereadores. É preciso saber se a população tem a percepção do que está acontecendo.
JC - De certa forma, toda essa situação que vive a Câmara acaba enfraquecendo a instituição? Loriza - Não acho que enfraquece. Apesar da população não acompanhar de maneira sistemática esses dados todos, quando se sabe que alguém que cometeu o desvio ou faltou com seus deveres e foi saneado, na minha opinião, isso reforça a política. A idéia de que a política está em movimento e que os maus políticos vão sendo expurgados do processo e que outros virão e que temos a expectativa de que eles serão melhores, logicamente que isso fortalece a política. O que deixa a política ser deplorável - e a gente ouve, a todo tempo, de que todo político é ladrão - é exatamente não fazer essa limpeza.
JC - Todo esse quadro atinge a credibilidade da classe política de uma maneira geral. O eleitor ainda consegue acreditar na política? Loriza - Eu acho diferente. Se faz uma certa apologia ao político como se ele fosse um semi-Deus, alguém altamente iluminado, diferenciado. E não é verdade. O político é apenas um representante. Obviamente que ele deve ter uma boa escolaridade, uma boa percepção do mundo, uma visão crítica da realidade, espera-se que ele tenha uma formação e habilidade para fazer política. Mas ele é mais um da sociedade. Foi eleito para representar segmentos, inclusive que aqueles não tiveram a oportunidade de alçar aquele lugar. Quanto mais a política nos parecer corriqueira, próxima de nós, quanto mais houver um amálgama entre a ação política e a sociedade de onde emerge os políticos, acho melhor. Ruim é parecer que eles são sacrossantos, distantes, endeusados. Isso é coisa da ditadura. Na democracia, eles devem estar próximos, inclusive sendo passíveis de uma avaliação constante.