Cultura

Filme não é documentário

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

A maioria das críticas negativas sobre o filme “Carandiru”, de Hector Babenco, ressaltam a possível parcialidade com a qual o diretor trata os presos em relação (por antagonismo natural) a polícia.

O que poucos lembram é que, nesse aspecto, o filme não difere em nada da abordagem de Drauzio Varella em seu livro - a obra inspiradora do longa-metragem. O médico deixa claro logo na introdução de “Estação Carandiru”, que o tempo todo só ouviu a versão dos presos, ou seja, que eles são as figuras centrais da história.

Quando o doutor foi à Casa de Detenção, não foi para fazer uma campanha de prevenção de aids com os policiais, mas sim com os detentos. Quando decidiu escrever as memórias dos dias em que viveu no Carandiru, não contou como viviam os policiais porque não estava ali para isso. Em nenhum momento, livro e o filme afirmam que aquilo o que está sendo dito ou mostrado é a mais pura verdade.

Se fosse um documentário, “Carandiru” seria um fiasco por não ouvir policiais, vítimas e autoridades. Como é um filme de ficção, não tem essa obrigação, mesmo que os fatos sejam baseados em casos reais. Babenco faz cinema, entretenimento e de uma maneira eficiente e bela. É verdade, “Carandiru” é um filme bonito, apesar do tema pesado.

Ao contar a história de Majestade, Lady Di, Zico e Deusdete, o diretor humaniza os detentos, mostra que por trás de pessoas que cumprem penas de décadas e moram no inferno da prisão, também existe amor, carinho, simpatia e até humor.

Quando mostra o ser humano que vive em cada preso Babenco, inevitavelmente, consegue a simpatia do público. É importante lembrar, porém, que em nenhum momento ele pede que essa simpatia se transforme em perdão das penas dos seus personagens ou aceita a versão que eles ditam das próprias histórias, ele apenas as reproduz.

Francis Ford Coppola faz o mesmo na trilogia “O Poderoso Chefão”, na qual praticamente transforma o espectador em membro da família mafiosa Corleone, de modo que se torna até saboroso ver Michael (Al Pacino) se vingando dos seus inimigos. Em nenhum momento ele pede para o público esqueça que Michael é um criminoso cruel, frio.

O que há de errado nisso? Aceitar a possibilidade de que o mal também ama, também deseja o belo, não que dizer que o mal é o correto. Seria muito mais fácil fazer um filme de prisão no qual todos os presos estão na cadeia porque são verdadeiros monstros. Babenco (e Varella) não optaram por isso porque são mais inteligentes.

Outra questão que querem tratar como delicada é o massacre. Mas mais uma vez há mais exagero do que motivo. Babenco realmente cria sua versão do episódio mostrando a polícia executando vários presos desarmados deliberadamente. É a sua versão, não quer dizer que foi verdade. Amanhã, ou depois, outro cineasta pode fazer um filme mostrando como os presos atacaram ferozmente os policiais - que só revidaram. Também vai ser só uma versão, será que é tão difícil entender isso?

É claro que se um cineasta optasse por contar essa “segunda” versão da história ele teria que ser muito, mas muito habilidoso mesmo para explicar o placar de 111x0 no final da rebelião. Talvez Babenco não tenha toda essa habilidade e tenha, então, optado pelo caminho mais fácil. Será?

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