Nos últimos três meses a luz da atualidade esteve concentrada na guerra contra o Iraque e todos os demais acontecimentos ficaram obscurecidos. É compreensível, pois o que estava - e está - em jogo é de transcendental importância para o mundo, já que não se tratou apenas da derrubada de um ditador sanguinário e de seus sequazes. As implicações desta guerra são imensas: o unilateralismo da política externa norte-americana, assumido pela primeira vez com toda clareza; o conceito inaceitável de “guerra preventiva”; a marginalização das Nações Unidas; o desenho apressado do novo mapa geoestratégico do Oriente Médio e do petróleo.
Por outro lado, suas conseqüências são previsíveis: a reação dos diferentes componentes étnico-religiosos do povo iraquiano; a instabilidade do mundo árabe-muçulmano; o risco de manifestações em cadeia nas ex-repúblicas soviéticas islâmicas, na Rússia, na China e as divisões - até agora contidas - na União Européia. Apesar da exposição desta guerra nos meios de comunicação, descobrimos que pouco sabemos do que realmente aconteceu. Ao que parece, a informação nos chegou bastante distorcida, intencionalmente, e tanto por culpa dos meios ocidentais - a CNN em primeiro lugar - quanto dos árabes - as TVs iraquiana e a Al Jazeera.
Muitos aspectos ficaram na sombra. Por exemplo, desconhecemos o número exato de baixas, mortos e feridos, civis e militares. O mesmo pode-se dizer sobre a extensão da gravidade das devastações sofridas pelo território, submetido a bombardeios nunca antes experimentados.
Felizmente, a guerra terminou mais rápido e mais facilmente do que se supunha, mas, até agora, sem rendição nem vitória anunciada. Este é outro mistério. Terão algum fundamento os rumores procedentes de países árabes sobre uma “negociação final” para evitar a terrível batalha de Bagdá? É de se notar que, ao contrário do que se temia, os poços de petróleo apenas excepcionalmente foram incendiados. A polícia de Saddam está sendo recuperada rapidamente pelo comando norte-americano. O mesmo acontecerá com influentes funcionários do regime deposto?
Quanto aos negócios - petróleo e reconstrução - a administração Bush não perde tempo. Grandes empresas, algumas muito próximas dos grandes nomes do governo, como o vice-presidente Dick Cheney, já foram selecionadas para assumir essas rentáveis tarefas. Em termos europeus, diria-se que se trata de uma imoralidade. Mas, no outro lado do Atlântico, quando estão em jogo os negócios, os valores são diferentes.
A explicação dessa nova atitude pode estar no fato de que as eleições presidenciais norte-americanas acontecerão em novembro do próximo ano. A recessão econômica, longe de ser superada, mostra indícios de agravamento. Além disso, agora é necessário atender a “frente interna”, bastante descuidada nos últimos meses. Não vá acontecer com Bush filho o mesmo que ocorreu com Bush pai: ganhar a Guerra do Golfo e perder as eleições seguintes. (O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal no período 1986-1996)