Economia & Negócios

'Dinheiro barato' é opção para evitar juro de cheque especial

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

A auxiliar de escritório Neili Aparecida Bertolo, 41 anos, ultrapassou o limite de R$ 1.000,00 de seu cheque especial e teve de fazer um empréstimo pessoal de R$ 600,00 para cobrir parte da dívida. Mesmo assim, teve de renegociar o restante em 18 parcelas. O pesadelo do cheque especial é comum a grande parte dos brasileiros, e recorrer a outros empréstimos e renegociações para saldar a dívida principal se torna a única saída.

Devido aos altos juros, para eliminar a dívida do cheque especial qualquer artifício compensa. “O cheque especial é a pior linha de crédito para a pessoa que vai precisar de dinheiro a longo prazo”, afirma a gerente-geral da Caixa Econômica Federal (CEF) em Bauru, Selma Peres Rubira.

De acordo com o Banco Central (BC), a taxa de juros média do cheque especial é de 177,9% ao ano, maior nível desde abril de 1999. Por mês, os bancos cobram juros que variam de 9% a mais de 14% para quem entra no especial. Quem deve R$ 200,00 para o banco, por exemplo, ao final de um ano terá uma dívida média de R$ 555,80.

Segundo o economista Fernando Pinho, os juros do cheque especial são altos devido à inadimplência e à escassez de dinheiro para crédito no mercado. “O cheque especial tem uma taxa de juros muito mais alta do que as outras modalidades de financiamento em função do credor não ter nenhuma garantia real”, diz.

De acordo com Pinho, levantamento feito pelo BC em fevereiro mostra que o spread bancário, isto é, a diferença de juros entre o dinheiro captado pelos bancos e emprestado aos clientes, é composto em 15,8% por custos com inadimplência. O restante é dividido entre despesas operacionais (19,2%) e impostos (cerca de 30%). A margem de lucro da instituição compõe, em média, 35,7% da taxa.

Ainda que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduza a taxa básica de juros (Selic), hoje em 26,5% ao ano, o cliente bancário terá poucos benefícios. “As taxas não baixam para o consumidor na mesma proporção em que o governo diminui a taxa de juros básica”, afirma Pinho.

Saídas baratas

Com taxas de juros ao redor de 5%, o empréstimo pessoal - como o Crédito Direto ao Consumidor (CDC) - é uma maneira recomendada por especialistas para se livrar da “bola de neve” do cheque especial. Ainda assim, há saídas até mais baratas para saldar a dívida do cheque.

“Uma das possibilidades é a renegociação do cheque especial”, afirma Selma, da CEF. Segundo ela, é possível renegociar dívidas antigas em parcelas com juros de 3% a 4,75%, com prazo de dois a 24 meses para pagar.

O penhor de jóias e a antecipação da restituição do Imposto de Renda, modalidades mais seguras e com taxas mais baixas que o parcelamento, também são saídas recomendadas por Selma.

O consumidor também está percebendo que há dinheiro “mais barato” no mercado para evitar o limite do cheque. “É preferível fazer um empréstimo pessoal a usar o cheque especial”, declara o aposentado Ivo Guedes de Mendonça, 65 anos. Segundo ele, é necessário controle rígido para não entrar nos juros “absurdos”.

“Há muito tempo eu deixei passar (para o limite), mas aprendi uma lição”, conta.

Já na opinião da assistente de administração Cristiane Guariento, 31 anos, só ganhando “muito bem” para não cair no cheque especial. Ela, que tem limite de R$ 700,00, paga cerca de R$ 80,00 de juros por mês. “Estou pagando juros demais”, diz. E completa: “Fora CPMF, tarifas da conta etc”.

Outra maneira de evitar os juros altos, pelo menos para os comerciantes, é trocar os cheques pré-datados no banco, que costumam cobrar taxas baixas - cerca de 4% - para esse serviço.

“Opto por não usar os juros do banco. Quando eu preciso de dinheiro, eu troco cheques no banco porque a taxa de juros é menor”, diz o comerciante Elias Baptista de Oliveira, 25 anos. “Estipulo uma cota mensal, e dentro disso eu tento sempre manter essas regras. É uma política de não atingir o cheque especial”, acrescenta.

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Atenção aos contratos

O Procon de Bauru recebe diariamente um grande volume de consultas a respeito de dívidas com o cheque especial, cartão de crédito e empréstimos pessoais. Para o coordenador do órgão de defesa do consumidor, Sílvio Orti, o consumidor deve ficar atento ao que está escrito nos contratos.

“A primeira coisa que o consumidor tem de fazer é ter o contrato em mãos e saber quais os juros que serão embutidos naquele empréstimo”, diz Orti. Segundo ele, apesar de haver decretos regulamentando o limite máximo da taxa, quem regula os juros é o mercado. “Os bancos têm a liberdade de contratar aos juros que eles entenderem necessários”, observa.

Na opinião de Orti, a única saída para o consumidor não “se enrolar” em dívidas e juros é disciplinar os gastos. “O consumidor deveria rejeitar em qualquer hipótese o cartão de crédito, o cheque especial e o empréstimo pessoal. Para tanto, ele tem que entender que o orçamento doméstico é como uma empresa, ou seja, tem que existir uma receita e uma despesa, sendo certo que a despesa tem de ser menor que a receita”, afirma.

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