Saúde

Ser mãe

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

Adolescentes, adultas ou maduras, as mulheres têm maneiras muito diferentes de lidar com todas as transformações da gravidez e com o impacto de um bebê em casa

A maternidade traz consigo um conjunto inumerável de transformações na vida da mulher e do casal. As mudanças afetam o corpo, a mente, a casa, os hábitos e até mesmo os desejos. Lidar com tudo isso não é fácil, segundo especialistas. E a maneira como as mulheres - e seus companheiros - enfrentam todos esses impactos varia sim de acordo com a faixa etária em que a gestação acontece.

Estudos indicam que a melhor época para uma mulher engravidar é entre os 20 e os 35 anos de idade. É uma fase em que ela já venceu os conflitos da adolescência e seu corpo está plenamente desenvolvido. Na maioria dos casos, a profissão já está definida e a vida financeira e o relacionamento são estáveis. Existe um equilíbrio mais propício ao planejamento para a vinda de um bebê.

No entanto, adolescentes e mulheres mais maduras também podem viver uma gravidez. Só que, como tudo na vida, os extremos são sempre mais complicados. Não é regra, mas a gravidez para essas mulheres tende a gerar mais preocupações.

Do ponto de vista físico, na adolescência, existe um risco maior de acontecer um abortamento espontâneo ou um trabalho de parto prematuro porque o corpo pode não estar plenamente desenvolvido para segurar o embrião (forma inicial da vida) ou feto (bebê em formação).

Na outra ponta, acima dos 36 anos, são maiores as chances da mãe apresentar diabetes gestacional, hipertensão arterial e de nascer uma criança especial.

“Imagine um cacho de uvas maduro. Primeiro você come as uvas maiores, mais bonitas e doces e vai deixando para o final as uvas menores, mais feias e amassadas. Com a mulher é a mesma coisa”, compara a ginecologista Carla Lambertini Bonjorno.

Ela explica que as meninas já nascem com um “cacho” de óvulos formado nos ovários. Eles ficam dormentes até a puberdade, quando começam a amadurecer e desprender-se.

“A natureza cuida para que primeiro saiam os óvulos mais saudáveis, mais capazes de ser fecundados, mais capazes de se fixar no útero. Com o passar dos anos vêm os óvulos mais ‘fracos’, aumentando progressivamente as chances de abortamento e fecundações anormais, até que acabam os óvulos, na menopausa”, descreve.

A médica, porém, comenta que todos estes riscos são relativos. “A literatura médica nos dá números que permitem esse raciocínio. Mas na prática, o que vale é a saúde da mãe. Uma mulher com 38 anos bem nutrida, atleta, com peso bom, tem uma chance muito melhor de ter uma gestação tranqüila do que uma mulher de 20 anos fumante, usuária de drogas e que vive tomando anorexígenos para emagrecer”, exemplifica.

Ela garante que os hábitos da mulher e os fatores externos incorporados à sua rotina afetam muito mais a qualidade de uma gestação do que somente a idade cronológica da mãe.

Prioridades

A definição de prioridades é outro ponto que muda muito conforme a idade em que a mulher engravida. Observando pacientes em consultório, Bonjorno percebeu que existe um padrão de comportamento diferente para cada faixa etária.

“Na adolescência, a preocupação maior da mulher durante a gestação é saber se seu corpo vai voltar ao normal depois do parto. Entre os 20 e 35 anos, a futura mamãe divide seus cuidados entre acompanhar o desenvolvimento do bebê e não ganhar excesso de peso. Depois dos 35 anos, a mulher tem uma preocupação quase doentia com a formação do bebê”, comenta.

A psicóloga Sandra Leal Calais, professora-doutora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) salienta que um dos principais requisitos para se ser mãe é ter disponibilidade de deixar tudo de lado em favor do outro. “O adolescente não tem isso em seu repertório, ele quer sair, curtir e quem acaba assumindo o bebê são os avós”, observa.

Na outra ponta, ela comenta que as mães de 40 anos tendem a exagerar nessa dedicação. “Qualquer coisa que o bebê tenha ela já acha que vai morrer. Até por ter mais experiência, por avaliar mais o perigo, ela acaba proibindo mais (...) Ela vai ter uma resposta de ansiedade que também atrapalha o desenvolvimento da criança”, destaca.

Para a psicóloga, a mãe na idade mediana, entre 20 e 35 anos, geralmente já está madura o suficiente para saber o que quer. Ela planeja a gravidez, concilia com o trabalho, tem amigos que têm filhos para trocar experiências e já está mais preparada para os desafios.

“É aquela mãe que, tendo tudo preparado para ir a uma festa, não se frustra de ter que guardar o vestido no armário porque o filho amanheceu febril. Ela desiste da festa e não fica infeliz por isso. Ela tem consciência de que é uma condição daquele momento, é contingente ao ser mãe, abrir mão das próprias coisas em função do filho”, observa.

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Rafaella, 19 anos

A adolescente Rafaella Vieira Ramos, 19 anos, define como desesperador o momento em que descobriu que estava grávida. “A gente namora desde os 13 anos, mas sempre terminando e voltando. Estamos juntos para valer há um ano e meio. Quando descobri, (a gravidez) achei que ia ser o fim”, conta.

Apesar da surpresa, porém, as famílias de ambos deram total apoio ao casal e Rafaella pôde viver sua gestação com tranqüilidade. Hoje, sem muitas mudanças em sua vida, ela garante que ser mãe é maravilhoso. “Para mim, só acrescentou, porque ela é quietinha e dorme a noite toda. Então, eu continuo saindo normalmente enquanto minha mãe ou minha sogra cuidam dela”, afirma.

Questionada, Rafaella admite que se pudesse voltar atrás, ela esperaria um pouco mais para engravidar e aconselha outros adolescentes. “Eu acho que deve esperar, porque tem muita coisa ainda para curtir, aprender, estudar. Mas se vier... Ser mãe é tudo de bom”, comemora.

Para a mãe dela, a assistente social Elaine Vieira Pires Ramos, porém, a felicidade da filha deve-se ao apoio familiar. “Eu dou aula para gestantes carentes no projeto Dr. Bezerra de Menezes e lá o quadro é bem diferente”, comenta.

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Adriana, 32 anos

“Foram seis anos de casamento antes de planejarmos o bebê”, conta a comerciante Adriana Marli Bastos Dias Costa, 32 anos. Ela e o marido optaram por curtir a vida a dois, namorar, viajar e criar uma estabilidade familiar maior antes de “encomendar” Fábio Henrique, hoje com 2 meses.

Adriana defende que a decisão de trazer uma pessoa nova para a família tem que ser muito bem estudada, planejada e avaliada por todos os ângulos - o espacial, o psicológico, o financeiro. “A vida a dois já não é fácil. Começar com três, de cara, sem planejar, é muito difícil”, salienta.

Ela conta que deixou tudo de lado desde que o filho nasceu. “É o bebê em primeiro lugar, o bebê em segundo, o bebê em terceiro e aí, se der, se sobrar tempo e energia, o casal em quarto lugar. Esses primeiros meses são muito voltados para o bebê, para conhecer, saber as vontades, saber quando o choro é de dor, de fome, de fralda suja. Eu acabo devendo um pouco de atenção para o marido”, admite.

Na opinião de Adriana, um casal precisa estar muito bem estruturado e cúmplice para enfrentar bem a experiência da maternidade/paternidade. No caso dela, o marido também desejou e planejou o filho. “Então, ele é companheiríssimo, participa, troca fralda, acorda de madrugada, é maravilhoso”, salienta.

Fábio Henrique nasceu de parto normal com analgesia. “Duas ou três horas antes do nascimento a dor fica bem forte, mas é suportável e aí vem a analgesia. Depois, tudo desaparece quando você vê a carinha do bebê (...) A experiência é maluca, é muito forte, um amor muito diferente, incondicional, uma coisa que chega até a doer. É uma coisa maravilhosa”, encerra.

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